domingo, agosto 20, 2006

Quase ufana, a malta arrisca-se a precipitar-se num ismo qualquer. Mais uma vez! Desta, ser ou não Ariano tem pouco a ver. A coisa agora, à escala global, passa por parecer querer ser saudável! Sempre alegre e estável! Muita melanina, muita massa muscular, abaixo os tabagistas, os tipos com bigode, a meia branca, abaixo o tecido adiposo acima do zero, o pé de galinha. Viva a banda gástrica, a lipoescultura, o branqueamentos de dentes e haveres, o antidepressivo, o shot rapido e eficaz, a tonteria de um tracinho que nos aguça a moleirinha e faz parecer rápidos e concisos, versados nisto e naquilo, ágeis e argutos, astutos, pequenos Deuses quase perfeitos não fora um ou outro peidinho...
Nunca gostei dos ismos! Dá-me náuseas. Relembra-me erros de outros tempos.

quinta-feira, agosto 17, 2006

A acreditar no Expresso, o Millennium ofereceu a Miguel de Sousa Tavares uma quantia que rondava os 250 mil euros. Este, teria em troca, de ceder a sua imagem para uma campanha publicitária com que esta entidade bancária pretendia influenciar determinado tipo de consumidores!
O homem, invocando que a sua actividade jornalistica não é compatível com publicidade, recusou.
Num tempo em que o dinheiro parece servir para comprar tudo e em que a maioria se dispõe a dizer ou fazer, não importa o quê, em troca de bem menos, o facto, parece estranho!
Talvez que a sua situação financeira lhe pudesse ter facilitado a recusa... contudo, não resisto a imagina-lo como um dos homens que se quer livre e que, por isso, não está à venda nem padece de soberba.

Já agora; gostei de ler "O Equador"! Para além do leitor comum, a "corte" Portuguesa em particular, deveria ler e reflectir sobre este romance histórico. Talvez assim, pudesse mudar a mentalidade que, no essencial, lamentavelmente, permanece igual aquela que tinha em 1900!

quinta-feira, agosto 03, 2006

Circalhada

É no circo que os porcos andam de bicicleta. Que os palhaços... ricos e pobres, alimentam o personagem com contendas, ilustrações de metáforas que, vá-se lá saber porquê, regozijam e fazem rir o público. É no circo que os elefantes se equilibram numa perna só, que os homens aceitam ser serrados ao meio, andar no arame sem rede, serem disparados de canhões ou até de marcharem contra os ditos!
Os números, são cada vez mais arriscados e surpreendentes. No tempo que que os lucros da banca não param de crescer e em que lhes é permitido aumentar o que bem lhes apetecer, é apertado o espaço de quem se recuse pagar licenças para sacar ou não queira ser sacado e, mais grave... é apertado o espaço de quem confesse não querer enriquecer!...
Se um malabarista consegue por a rodar no ar dez bolas de fogo sem se queimar, logo se vê obrigado a ensaiar um número com doze. Se um domador consegue fazer com que um macaco toque violino, logo deverá começar a dar corpo a uma orquestra de vários macacos a tocar vários instrumentos!... É assim a vida no circo!
...Neste particular, Portugal, parte integrante do mundo ocidental - o mundo rico e pujante - está no seu melhor... a quantidade de coelhos a sair da cartola, não pára de aumentar. Os directores do circo - financiados por malabaristas que detêem fundos inesgotáveis enquantos os palhaços andarem à estalada - compraram Jipes, deram provisão a contas em ilhas distantes e, propõem apresentar um fantástico e espectacular número, em que os animais amestrados, vão andar de bicicleta sem mãos, sem pés e... sem bicicleta!...
...Tendo em conta a qualidade dos animais em pista, sou levado a acreditar que este desafio poderá ser largamente superado e por isso, a fasquia deverá, antes mesmo de ter sido superada, de ser posta um pouco acima.

quarta-feira, julho 05, 2006

A fuga em frente

O ritmo a que se entende forçado a levar a sua vida é superior à sua pedalada?
...Não faz mal: tome um estimulante e vá em frente.
Por ter ido em frente, bate com a testa na trave e fica ferido, deprimido? ...A sua esposa é uma vespa, o seu marido, uma besta?!... Não se deixe perturbar; tome um antidepressivo e disfrute do poder de ser quem é não sendo!
...Tendo sido quem é não sendo, vê-se confrontado com distonias, arrelias que lhe inundam o estômago de ácidos fora de tempo e lhe provocam arritmias ou perturbam os ciclos normais do sono?!... Não se preocupe. ...Você tem de ter muita calma e, para isso, tem ao dispôr um antiulceroso milagroso que em simultâneo lhe inibe a secreção gástrica desatempada, uma benzodiazepina com efeito calmante que lhe tranquiliza a mente e lhe permite não se incomodar com a malta que lhe mete o dedo pelo cu acima, que o pica e arrelia, sendo que... ao deitar, pode ainda reciclar a merda que fez durante o dia. Não pensar, fazer delete e mergulhar num soninho de anjo.
...Tem crises de asma, alergias? Vê-se confrontado com uns parvalhões que lhe dizem que tudo tem a ver com a qualidade do ar, com níveis alarmantes de ozono, com os tóxicos que comemos, com a habituação à medicação que o prende ao balcão da sua farmácia preferida?!
Mande-os lixar! Você, bem conhece os anti histamínicos, os bronco dilatadores de curta e longa duração com ou sem cortisona, sabe que, se o Ventilan e o Brisomax não funcionarem, há ainda o Assieme e que, se ainda assim estiver enrascado, pode ser ventilado, entubado e aspirado num hospital do estado ou num privado...
Sente-se enfartado por ter comido meio queijo castelões e dois leitões? Não sofra mais! Para que pensa você que existe o Compensan, o Eno, o Primperan ou o Legalon? ...Imagine que, ainda assim a coisa não vai lá... que é vítima de uma descarga e fica de caganeira um rôr de tempo... acaso não conhece o Motilium e uma infinidade de medicamentos amigos que lhe permitem continuar a fazer as besteiras de que tanto gosta e que lhe trazem cor à vida?!
A situação vai de mal a pior? O médico diz-lhe que tem a vesícula cheia de pedras? ...Amigo, por que espera? Tire a danada fora, que é uma operaçãozita cagada e a vesícula não está lá a fazer nada.
Tem um joelho cheio de artroses que lhe dificulta o andar? ...Por que raio é que tem de aturar esses malucos que lhe segredam quase a medo, que tudo isso tem a ver com carências, sobrecargas metabólicas, sedentarismo?... Amigo... o que essa gente quer, é atrofiar-lhe o homúnculo! Mande-os à merda! Compre um analgésico, um antinflamatório, e já agora, o omeprazol para não ficar com o estômago inflamado! Ainda assim o joelho teima em doer?! Vá a um hospital particular (que é mais rápido), tire uma radiografia, uma eco, uma ressonância, ponha uma protese e... toca a andar!
Rebentou com a carteira e ficou deprimido? Não se deixe abalar. Telefone a uma instituição de crédito rápido e comece tudo do princípio... Vai ver que não doi nada e que tudo vale a pena!
Entretanto, já sabe... não mude de emprego, não mude de atitude, não mude de alimentação, não mude de vida... acima de tudo não mude, não reaja, não se insurja nem se ponha a pensar ou a inventar... você, pode aguentar! Sabe, que pode sempre confiar no comprimido amigo e ver o mundo da côr que escolher (pagando claro!).

quinta-feira, junho 29, 2006

Genéricos

Por môr de quem, é que um médico que passa receitas com a comparticipação do estado, pode continuar a optar por receitar medicamentos de marca; duas, três e quatro vezes mais caras do que o genérico?
Se a esmagadora maioria dos utentes, não entende muito bem o que é um genérico, já o mesmo não se passará com os responsáveis pela gestão dos dinheiros públicos que, neste caso, continuam a engordar multinacionais farmacêuticas.
Eu cá para mim, 500mg de amoxicilina, são 500mg de amoxicilina e prontos! ...Independentemente da marca que lhe quizerem pôr. ...E não me venham cá com estórias de que... ah, mas é que... e não sei quê que mais... é que a fiabilidade... e tal...
Se os genéricos estão falsificados, estamos a ser enganados e a coisa deveria de ser tornada pública de vez. Se não estão falsificados, estamos a ser enganados também!
Então, mas tá tudo parvo, há medinho de beliscar multinacionais poderosas ou, há interesses inconfessáveis?

quinta-feira, junho 22, 2006

Um congressista bem intencionado

Foi relutante que subiu ao palanque. De lá, muitos tinham já botado discurso, denunciado e dado corpo a problemas, lançado alertas e suspeitas, criado polémicas... e, se um ou outro não o tinha feito à toa, a maioria limitara-se a escolher algo que no momento lhe parecia errado, encontrar um pressuposto culpado, apontar as baterias, e vai de o desancar sem dó nem piedade, através de exercícios de oratória que mascaravam frustrações e alimentavam a vaidade. Alguns ainda, mais ladinos, tinham na manga objectivos e ambições inconfessáveis, pelo que utilizavam uma retórica hipócrita, procurando levar a àgua a um moinho pequenino, que tinham no umbigo.
Subia hesitante, cheio de dúvidas nos princípios e conceitos herdados, espartilhado entre correntes, teorias e doutrinas e, se por um lado pretendia cultivar a humildade, a honestidade e a verdade, por outro desconfiava que essa sua pretensão pudesse não passar de presunção e no fundo fosse apenas uma forma de ocultar impotência e mediocridade.
Daí a relutância em subir e falar o que quer que fosse, de definir objectivos, traçar planos ou estabelecer prioridades. Tudo, por medo que algo pudesse dar para o torto ou até de se ver caido em tentação e ser apanhado a partir, a repartir e a servir-se da melhor parte, escudado na comum necessidade de não ser um parvalhão e acusado de falta de arte!
Era grande a tentação de não subir, quase tão grande como a vontade de mudar a realidade em que se via mergulhado e que, o incomodava e chegava a ferir em sítios fundos que não sabia definir.
Ainda assim subia, gostava de pensar que assumia risco! Subia, sem saber que uma multidão contratada por profissionais do ramo, marcava presença e se dispunha a demonstrar um vivo interesse em ouvir e apoiar o que quer que fosse dito. ...Uns para pagar ou obter favores, outros mais simplesmente em troca de um almoçinho, de uns copos de vinho, um dinheirinho... todos, se dispunham a acenar bandeirinhas, ovacionar, entoar palavras de ordem bem colocadas por profissionais cada vez mais especializados e competentes!
Discurso feito, espalhada a esperança, haveria gente que em troca dela e por se entender dela necessitada, se encarregaria de o levar em ombros a troco de nada, bradando aos sete ventos que era ele o salvador, o herói de que todos precisavam. ...Assim ele se empolgasse e deixasse fluir boca fora o que os especialistas contratados por quem na sombra o apoiava, lhe tinham injectado nas veias, reunião após reunião, congresso após congresso, palavra por palavra, através de métodos científicos modernos, com excelentes resultados comprovados.
Subia hesitante... mas à medida que subia e ouvia a multidão orquestrada a entoar o seu nome cada vez mais alto, deixou-se invadir por uma inebriante euforia que, como que por magia o tornou determinado.
Vencidas as dúvidas, limpo o picárro com que se chama a atenção a quem cabe ouvir, lançou-se delirante e apaixonado num discurso em que se dispôs a prometer, tudo o que quem o tinha feito subir tinha programado!...
Mais tarde, quando a culpa das promessas não terem sido cumpridas lhe caíu em cima e o tapete lhe foi retirado à medida que por necessidades estratégicas um novo personagem ia sendo promovido e incitado a subir ao palanque... ficou danado! Não fosse a fatia com que à cautela - enquanto partia e repartia - tinha ficado, e tinha dado o tempo por mal empregue. Assim, tirou umas férias para reflectir e preparar o regresso na pele de um novo personagem.

sábado, junho 17, 2006

Um peito cheio de vazio 6

Depois de tudo isto organizado, dividido o mundo em maus e bons para facilitar, pôde finalmente a elite do topo, começar a usufruir de algum lazer e, no entrementes , dedicar-se a sofisticar os meios de controlo para que tudo continuasse da melhor forma com um esforço cada vez menor.
Inventaram a muralha, a fronteira, o imposto, a moeda, o cunho, a multa e a pena, o pecado a confissão e a absolvição, da moca evoluiram para o canhão, para o agente de informação, o especialista em especulação, o cobrador de fraque... enfim, uma revolução que, se convenceram e apregoaram, de muito prática e de grande utilidade.
Entretanto, desse subgrupo da maioria - essa minoria tresloucada de que foram recrutados os soldados, os fiscais, os representantes legais e todos os outros que por terem na mira poleiros em lugares destacados, se tornaram capazes de seguir códigos e condutas de fazer arrepiar -, sobrou uma gente que se revelou impossível de ser seduzida, por melhores que fossem as promessas ou mais brilhantes os mundos e fundos apregoados! Avessos a este progresso, recusaram as condições de acesso e, não só não aceitaram licenças para cobrar impostos, como se recusaram a pagá-los! Diziam-se capazes de enfrentar o medo, teimavam em andar em bolandas em busca de melhor forma de vida e, não contentes com isso, insistiam em defender a maioria a que diziam pertencer, sem se importarem se ela queria ou não ser defendida. Afirmavam que era ingénua, e que, por ter vindo a ser embalada com canções do bandido e hipnotizada com néons de todas as cores... representava um perigo e não se encontrava capaz de decidir o que quer que fosse!
Teimosos, em vez de uma vida estável e tranquila, do usufruto de uma ração de subsistência que, embora pequena, lhes poderia vir parar à mão em troca de cooperação, esta gente renitente em aceitar as facilidades oferecidas, insistia na busca de melhor sorte, saltava cercas, fronteiras e muros que delimitavam zonas interditas com que não se conformavam, e arriscavam ser apanhados em finas teias fabricadas pelos próprios familiares e amigos, pelos compadres e, claro, por gente sem rosto... mandatários e mandados, carrascos e vítimas... uns e outros, movidos por medo e ambição.
Nessas jornadas atribuladas, nesses caminhos desconhecidos em que deambulavam para manterem a rédia larga, não raro, davam por si em zonas francas, bem para lá do que a vista alcançava (uma espécie de off shores desse tempo..), e ficavam embascacados com a facilidade com que se conseguia lá operar e retirar uma boa mais valia, pactuando com essa espécie de regime, esse submundo, que sem dúvida existia, sob um manto nebulosos de estranhas regras inventadas por quem tinha a faca e o queijo na mão e, como é bom de ver... interesse nisso! Mas, a maior parte das vezes, no dobrar de cada esquina, a coisa fiava fino e viam-se obrigados a botar sebo nas canelas e a largarem-se a bom correr. Faziam-se à travessia de desertos ou lançavam-se silvados adentro, sem escolher para onde iam e sem ligar aos estragos que essas fugidas lhes causavam na farpela, porque assim não sendo, o mais certo... era verem-se metidos num circo em que, enjaulados e amestrados à força de fome e chicote, pudessem servir de exemplo!... Seja lá pelo que fosse, há muito que ninguém lhes põe a vista em cima e, se uns acham que eles estão extintos, outros, preferem especular sobre embuçados e seitas secretas que se movem nas sombras em busca de iluminados.

Continua.

domingo, junho 11, 2006

Um peito cheio de vazio 5

Para levarem a cabo a coisa, quer dizer... para se manterem no topo, apoiaram-se precisamente nos que a fome e as carências tinham tornado menos escrupulosos, mais afoitos e perigosos, e que, por isso, eram a razão daquele incómodo constante.
Chamaram-nos à parte e, com um discurso demagógico aveludado, encheram-lhes os ouvidos de metáforas que falavam de sapos transformados em príncipes, gatas borralheiras escanzeladas preferidas a princesas ricas e roliças, taludas desencantadas no desespero das bolsas necessitadas, camelos a passar pelo buraco de uma agulha, nuvens fofinas cheias de virgens... e, com promessas quixotescas da entrega de reinos distantes para todo o sempre, ofereceram-lhes formação no manejo da moca, entregaram-lhes fardas e, em troca de total e incondicional dedicação às causas intrínsecas, garantiram-lhes uma ração diària reforçada, com sobras da primeira escolha. Em seguida, numa cerimónia bem composta, pensada ao promenor para exarcebar o orgulho e alimentar a vaidade, investiram-nos em postos de prestígio garantido, entregaram-lhes couraças, distribuiram medalhas, fizeram deles guardas, descobridores especializados na busca do que açambarcar, guerreiros e conquistadores que entravam a matar para tomar posse, vendedores de golinhos de àgua a preço de ouro nos desertos, e, aos mais fuinhas, transformaram-nos em fiscais, com a missão de apresentarem relatórios detalhados sobre o desempenho dos outros!
Aos mais ladinos, acharam por bem mantê-los ocupados no fio da navalha, na linha da frente, em duras missões de alto risco que, de tal modo exigiam acção e total concentração, que não permitiam pensar e por isso arquitectar o que quer que fosse...
Todos (de primeira, de segunda, ou rasos), recebiam a ração, conforme a prestação.
...Prestada a vassalagem, tornadas inquestionáveis as ordens superiores que os libertavam da culpa das barbaridades que iam cometendo, recebida a garantia de mundos e fundos, de vantagens transcendentes em acções e combates que se dispuseram a levar a cabo contra quem e onde quer que fosse, tomou forma uma classe, disposta a avançar conduzida e sem pensar, num nunca mais acabar de conquistas, quais fiéis em guerras santas com os olhos postos nos saques.
Investidos nesses cargos, passaram a construir a realidade com todo o à-vontade e, com base na crença adoptada de que "o mal", era com certeza o resultado da obra do Diabo,
enjeitavam qualquer responsabilidade no que pudesse dar para o torto! Ainda assim, se a coisa não lhes corresse de feição, tinham como recurso, uma série de rituais para utilizar segundo as necessidades e, orientados por especialistas, podiam sempre aceder a um Deus supremo e pedir para interceder e colocar as coisas, no lugar!
Em troca de um sacrifício, feita que fosse uma promessa, entoada cabeça baixa uma ladainha... era esperada com certeza, boa sorte para levar a cabo um massacre, com a mesma naturalidade com que se rogava o fim de uma tempestade, de uma doença maléfica ou de uma fase de má sorte!...
A maioria, aquela gente que de tal modo obsecada em se "safar", nunca enjeitou estar de bem com Deus e Com o Diabo, aquela multidão que como um rebanho em busca de erva tenra e fresca, passa a rapar sem parar ou pensar e, que sem saber porquê acredita não ter nada a ver com nada e gosta de balir... aderiu, muito bem a este estado de coisas.
Sumissa, no encalço de benefícios, aceitou cada ultraje, cada pedaço de sofrimento, cada violação ao recôndito mais casto da alma... e, era vê-la, a trocar sacrifícios por mais valias, confissões por perdões, acções por intensões...
Aderiram, também, não fosse serem confundidos com inimigos e, entendidos como infiéis, encostados à parede e varados lado a lado sem piedade.


Continua

quinta-feira, junho 08, 2006

Um peito cheio de vazio 4

Temos por isso que, enquanto uns poucos contestavam, penetravam em feudos de onde às escondidas sacavam o que podiam, e que para além disso ainda aliciavam a maioria para se lhes juntar, por outro lado, essa maioria que confundia a humildade com a subserviência e que, pela sua natureza se dispunha a fazer o que lhe parecia o melhor para sobreviver e se contentava em usufruir das sobras, sentia-se realizada em sonhar com castelos no ar e aceitava perfeitamente, que muito mais vale um pássaro na mão que dois a voar!
...Por ter ouvido, chegou até a acreditar e a passar de boca em boca, que quanto maior for a miséria em que se viva, maior será a felicidade durante a eternidade! ...Por qualquer razão, talvez em jeito de compensação, isso parecia fazer-lhes sentido!...
Os chefes, se bem que no geral se sentissem regozijados com os resultados conseguidos pelos métodos utilizados - o levantar da moca, o desferir a pancada, o gritar e assustar para gerar medo e enxotar, o cultivar o segredo, o adensar o mistério... -, não se conformavam com a trabalheira a que se viam obrigados, para continuar a conquistar e a manter, o poder em mão fechada! Frustrados, por não se poderem entregar totalmente à parte doce da vida, saturados da necessidade constante de olhar por cima do ombro para proteger a retaguarda, talvez até... ressentidos, feridos no orgulho por derrotas sofridas e saques desabridos levados a cabo por esses revoltados pobres e mal agradecidos... resolveram fazer-lhes face, com uma tàctica inovadora : engendraram uma hierarquia, puseram-se no topo, e distribuiram lugares privilegiados pirâmide a baixo. Os de cima mandavam nos outros, e os mais baixos de todos, que não mandavam em nada e suportavam toda a estrutura, cumpriam o que lhes era ordenado com a garantia de tudo ter já sido, muito bem pensado. E isto, veio a revelar-se um enorme sucesso.


Continua.

sábado, junho 03, 2006

...dasssssse!

O Mundo visto de uma perspectiva, está dividido em dois lugares. Num, parece fazer sentido a lipoaspiração, as cápsulas para queimar calorias, os inibidores de apetite...
No outro, a vida esvai-se por falta de um pouco de água, de um simples prato de farinha...
Talvez por isso, no primeiro, se consumam tantos antidepressivos, ansiolíticos e drogas... para não sentir mal estar, bem dispôr e fazer rir!...

domingo, maio 28, 2006

A conspiradora

Estava eu a cogitar sobre os meus problemas, com a agenda carregada para o fim de semana, tentando conciliar uma sardinhada com uma mariscada, ralado com a mancha de humidade do canto da sala da casa da cidade, preocupado com a outra mancha que me dizem ser da idade, com a falta de tempo para ir ver todos os filmes que me dizem ser "a não perder", e assistir a europeus, concertos e mundiais... perturbado com umas prestações do jeep em atraso... enfim, uma carrada de problemas... e, quando dei conta, estava numa pilha! Num stress que só visto!... Vai daí, o que é que eu pensei? ...Bom, a coisa está preta... e disse para comigo: Zé Manel, tens de relaxar!...
Ora, uma coisa que me relaxa, é sentar-me um bocadinho em frente ao computador e entreter-me a visitar blogs, ler comentários divertidos que plantam uns nos outros para ganhar amigos, ver as picardias e assim... quando, dou por mim no blog de uma besta (que não tem outro nome!), que, em vez de divertir... não senhor!... Pespega-me com um post que nos remete para um video qualquer (sabe-se lá feito por quem e com que intenção...), sobre o Sudão... e não sei quê... que andam para lá uns dois milhões ao Deus dará, amontoados em campos de refugiados de arrepiar e não sei quê... no meio de dejectos e em que se queimam vivas crianças amontoadas e tal... e que as vítimas são violadas por quadrilhas endoidecidas... e que isto e mais aquilo... e que não se fala mais disso porque o Sudão não interessa a ninguèm (pelo menos para esta doida, parece ter algum interesse!!!...), e pátáti e pátátá... porque se o Sudão tivesse petróleo já os Amaricanos lá estavam a salvar aquela gente.... e que a Condoleza isto... e o Bush aquilo... e que a comunidade internacional é um bando de hipócritas... e que as agências de notícias já não são de informação, e que estão na mão de não sei quem e que só divulgam o que não sei quem quer... e que a ONU está na mão de uma Amaricana... e que o Sudão isto... e que o Iraque assim e o Irão assado, e que o Afeganistão isto... e mais os Amaricanos...
...Olhem... um chorrilho de disparates, um fanatismo alucinado, suportado por imagens que, só podem ser montadas!...
...Se aquilo fosse verdade, era notícia de abertura em todos os telejornais do Mundo! Capa de jornais e revistas e, na rádio, não se falava em mais nada enquanto a coisa não estivesse resolvida! O Sudão, à imagem do Iraque e do Afeganistão, estaria com certeza, cheia de capacetes azuis, forças de segurança Amaricanas para restabelecer a ordem, e nós, claro, já para lá tinhamos mandado forças especiais! ...É, ou não é?!
...Com que direito é que esta besta (que não tem outro nome!), vem poluir este espaço em que a pessoa se pode relaxar e entreter, plantar comentários divertidos em busca de admiradores e amigos, partilhar imagens de quedas e acidentes hilariantes, curiosidades e piadas picantes... e, acima de tudo, rir a bom rir?!
Acaso esta besta (que não tem outro nome!), que anda para aí a perturbar quem tem a vidinha montada e tem de se preocupar com os seus próprios problemas... acaso sabe, que rir dá saúde e que as ralações, nos fazem aparecer rugas e tiram anos de vida?!
Que tem lá ela a ver com o Sudão?! Onde raio é lá isso?! Que direito é que ela tem, de se meter lá nos assuntos deles?! Acaso é ela Amaricana ou da familia do Sudão?! Hum?!...
Se ela se importa tanto com a miséria, porque não vai ao Rock in Rio em Lisboa, e mata dois coelhos com uma só cajadada?
...Agora, por causa daquela tarada, daquela besta (que não tem outro nome!),estou aqui que nem me tenho, com uma sensação estranha, com um nó na garganta que não sei explicar e mesmo sabendo, que tudo aquilo é uma treta de mau gosto, vou ter de tomar um antidepressivo e dois ansiolíticos, senão, não arranjo disposição para ir comer a mariscada e aguentar dar um saltinho à sardinhada!...
Por via das dúvidas, e para que não caiam nas ratoeiras que só pretendem plantar-vos na alma, traiçoeiras sementes de indignação, sinto-me obrigado a vos mostrar, como esta gente actua para perturbar a paz e o bom viver! Ide... ide ver, aqui. Mas não vos esqueceis... dai de fuga quanto antes para não virem a sentir sensações estranhas para as quais não há explicação e que só passam com comprimidos que só se vendem com receita médica (ou talvez não!)!

quinta-feira, maio 25, 2006

Um homem de sucesso

Homem de família, católico mais ou menos praticante, adepto comedido mas sofredor q.b. de um clube dos maiores, chegara a casa com a sensação do dever cumprido. Como quem limpa o cú a meninos, tinha vendido mais um carrinho. Um veículo com dez anos como novo, pertencente a uma velhinha. Negócio limpo, tinha dado para por a conta a positivo, pagar a prestação em atraso do andar, encher o peito de ar e levar a amante a comer uma mariscada! ...Num toma lá dá cá, tinha safado a vidinha e fodido mais um amigo!...

segunda-feira, maio 22, 2006

Um peito cheio de vazio 3

Orgulhosos das façanhas que foram descobrindo serem capazes, ganharam confiança, emergiram, e tornaram-se chefes de uma tribo despojada que, cada vez mais raquítica de sedenta e esfomeada, se agrupou à distancia que o medo lhes permitiu e, aceitou resignada ter sido arredada do que sempre julgara pertencer a toda a gente.

Ainda hoje não se sabe, se foi a necessidade, a cobardia ou a estupidez, que fez esta tribo desenvolver a arte de adular, respeitar e admirar quem a pisa e subjuga!...
Ainda hoje há quem pergunte, que raio se terá passado, para que tenha vindo a aceitar levar no lombo, e aguardar pacatamente cheia de esperança, uma oportunidade para enganar as tripas, com as parcas sobras lançadas do topo...

À medida que as fortunas foram crescendo, a miséria foi graçando. ...No seio dos espoliados, despontaram pequenos grupos de gente revoltada, alucinados pelas carências, autenticos focos infecciosos que irritavam, debilitavam o sistema e se recusavam a prestar vassalagem. ...Insistindo não terem nada a perder, dispunham-se constantemente a avançar, em mais ou menos tímidas pilhagens, aceitando o risco de ver rachada a cabeça como um preço a pagar, por uma vida mais airada!
Ora... isto, exigia à gente do topo (que punha e dispunha e que sem pejo se servia do que havia conforme entendia...), um alerta constante!...
Viram-se forçados, a instituir rondas diligentes com a moca ao ombro para impressionar e dissuadir, para mandar abaixo e quiçá até, destruir, quem, lhe viesse à ideia sair da linha e desafiar o destino.

Não raro porém, um ou outro membro desta elíte - menos hábil no manejo da moca, ou mais molengo de tão cheio dos banquetes -, foi botado abaixo à mão, por um destes grupos de famintos desvairados que, para além de procurarem por todos os meios, evitar andar a mando dos que chamavam de brutos, ainda incitavam os compadres a se lhes juntarem e, a fazerem também sua aquela luta que, claro, achavam justa, tendo em conta a posição em que se encontravam e de onde olhando, viam: uns, fartos com demasiado, e os outros, que de tão vazios e carentes, nem conseguiam digerir o que se lhes dava!...

Segue, Um peito cheio de vazio 4.

sábado, maio 13, 2006

Quinto Império

Foram tantas as guerras, os desatinos... tantos os dramas e momentos de dor... que acabaram por se render à evidência da urgência de descobrir caminhos e entender, melhor, o amor!...
Para trás, ficaram confrontos, desencantos, cantos e ilhas, mal entendidos nascidos de histórias mal contadas, equívocos e ressentimentos... cujo significado, de tão puído, se esfumara.
Parecido perdido o tempo... tinham ganho! ...Sobrevivido a batalhas que, se às tantas perderam o sentido, não deixaram de o ter tido.
Investido o que sobrara no afecto, no querer ver a todo o custo o "outro" bem... no projecto que, de tão distante da matéria só a alma o formava... viram crescer uma razão para a vida que os animava e, se numa ou outra encruzilhada se sentiram pobres e perdidos, olhos nos olhos... mãos nas mãos dadas... se descobriram enriquecidos.

terça-feira, maio 09, 2006

Um peito cheio de vazio 2

Tudo terá começado, no preciso momento em que um antepassado longínquo descobriu (dizem uns que por mero acaso, outros que, por desígnios transcendentes), a arte de rachar cabeças com uma simples moca. Essa descoberta, parece ter sido extraordinária!... Surpreendentemente, uma mocada bem aplicada, não só acabava em menos de nada com uma rixa, disputa ou teimosia, como tornava possível a quem desferia a pancada, estabelecer objectivos e fazer cumprir regras, sem mais, nem quês!
Boquiabertos, os membros do pequeno grupo em que a descoberta aconteceu, cedo verificaram a facilidade com que podiam chegar, impôr a presença e até expulsar os outros, dos locais de abundância. E isso, que para além do mais lhes permitiu confortar o estomago a seu belo prazer, como é bom de ver, tornou-os mais fortes e robustos.
Libertos da fome, constataram com agrado terem vindo a ficar com o peito mais cheio, os ossos mais compactos e, um crâneo em que sobressaia uma fronte mais alta e larga, parecia confirmar a superioridade dessa espácie de raça que, dominante, entendia merecer sem favor cada conquista, e via a ambição crescer desmesurada, como um dever.

quarta-feira, maio 03, 2006

Mea culpa

Num dos poucos momentos que tenho tido livres para bloggar, fui, de blog em blog, dar a um post do Alien's Corner que, alertava para o facto de que quem tem um blog, tem um mínimo de obrigação de o actualizar! A razão principal que me fez cair em mim e dar a torcer o braço, é que, quem nos visita e não é avisado da nossa indisponibilidade para blogar, anda a clicar em vão... sem necessidade!... Muito mais valia avisar da interrupção, com ou sem explicação! Coisa simples esta! Mas, confesso, nunca tinha olhado para a coisa por esse lado! Por isso, peço desculpas.

...Já agora, vou contar a história de um homem, com o peito cheio de vazio:

Uns diziam que ele nascera em berço de ouro, outros, que fora com o rabo virado para a lua!
Fosse como fosse, o certo é que crescera feito senhor de propriedades, capacidades e saberes superiores e que, sem saber como, se encontrou servo de um Deus herdado que, se bem que não entendesse ou sequer lhe servisse para reflectir sobre a sua essência, ainda assim lhe chegava para acreditar ter sido O escolhido e nessa condição ter nascido, com o destino traçado, protegido, em qualquer sentido e a toda a hora inspirado, por forma a cumprir a senda que, no seu magnânimo entender era a razão da sua vida; conduzir a populaça, mantê-la mansa e ordenada.

Com base numa crença antiga, numa cantiga que fala de filhos legítimos e de bastardos, assumia ser o justo herdeiro dos tesouros conseguidos pelos seus antepassados; bárbaros guerreiros, macumbeiros, poderosos feiticeiros, ilusionistas, gente... que recorrendo a artes e maroscas, foi saindo dos terrenos pantanosos e, avançando trevas fora, lhe tornava agora possível feitos, voltas e truques, que deixavam de olhos tortos quem o fixava, e deixavam para trás quem o quizesse acompanhar!...

Segue, "Um peito cheio de vazio" 2.

segunda-feira, abril 24, 2006