quarta-feira, setembro 06, 2006

Apita o comboio

A malta deveria pagar uma taxa suplementar para poder assistir a programas como o "Prós e Contras" desta semana.
O creme da nata, o calor a derretê-los e eles todos bem compostos de fatinho e de gravata como a malta gosta os respeita e manda a lei, temos o que merecemos, os artistas sem temor, o Major, o Doutor, o Srº Secretário de estado a querer marcar posição e a recolher, a marcar passo, compasso de espera a ver o que vai dar e a apoiar, incondicional... atrevido mas não tanto, que ele hoje está sentado e amanhã apeado e atrás de uma coisa desta bem que pode cair um governo, os juristas tímidos a botar uma ou outra palavrinha, considerações... o caso é gravíssimo meus amigos! Bastava olhar para o sobrolho do Major! O momento é de profunda reflexão e responsabilidade nacional! Portugal está em risco! ... Se a FIFA a UEFA... se a coisa fia fino... não há cu que vá aguentar...
Diga Drº... eu não sou Drº... o Major também não era Drº... a Drª era a Fátima, foi você que disse eu não disse nada... (risos sorrisos trejeitos) Portugal só ombreia com os grandes no futebol o resto é conversa fiada dizia o outro, chega Srº Major, Ó Fátima deixe-me concluir que isto é muito importante! E é. É muitíssimo importante!... A malta pela-se por coisas destas em que se perde em labirintos e lhe dá para entabular conversas com quem não tem nada para falar. O sobrolho franzido do Major, o Madaíl - que esse é Drº... - desgastado e que só se recandidata em caso de interesse nacional em caso de vir a ser obrigado... a intervenção do presidente do benfica está em linha e diz e concerta e explica e apoia e fala do apito apita o comboio!
Portugal só ombreia com os grandes no futebol! Qual judo, qual atletismo, qual vela, quais prémios Nóbel, qual massa encefálica de fálico só o Camarinha que já não é o que era! Coitado do Camarinha! Coitado de Portugal!
Deixe-me falar Drª que isto é muito importante e era. Era muito importante e continua a ser muito importante. A Fátima também é muito importante não a Drª que essa é apresentadora a outra a outra Fátima que também faz mover as multidões e permite a alguns concluirem o que queriam dizer. Deixe-me falar quando não o país arrisca-se a tornar-se um furúnculo preste a rebentar se o Srº Secretário não diz nada e não pára de suar se o caso não se resolve e depressa!
O apito dourado?! Quantos são (palmas)? Apita apita mas não ouço nada (Palmas! ...Essa é que é essa)!
O apito não é dourado! O apito é de ouro. De ouro fino como o silêncio que afoga o País em verborreia escorreia e manhosa à sombra de uma apetencia nunca vista para uma não existência.
Queremos lá agora saber do Nobre Guedes, aquele da casinha clandestina na Arrábida da licença para arrancar os sobreiros e urbanizar em nome do interesse nacional, aquele artista efémero por ter sido investigado e ilibado e que agora pede 450 mil euros de indeminização ao estado pela mancha no seu bom nome. Que interesse tem lá agora o Isaltino, a falácia das contas do porto de Lisboa, a EDP a dar lucros e a aumentar as facturas, a banca a dar lucros brutais e a espetar a farpa até onde lhe apetecer?! Isto é muito importante Drª! Fátima, deixe-me concluír... o futebol é uma instituição de solidariedade social, dizia o outro e é, até a CGD vai financiar um clube de futebol! Isto é muito importante!
A bem dizer, um jurozinho aquí uma comissãozinha acolá... e todos nós financiamos o futebol, todos nós financiamos estadios, sendo que o futebol, nos financia a nós, financia a nossa televisão que nos aquece ou arrefece os serões e deixa em paz a moleirinha... deixe-me acabar Fátima que isto é muito importante, e é! Quando não, estes vultos vetustos da nata portuguesa estariam a fazer colheres e a CGD o BES e outros assim, ou pagavam impostos a sério ou rebentavam de tanto lucro. Viva o Futebol, viva Portugal!

domingo, setembro 03, 2006

Jung Chang

A humanidade tem tido revoadas de delírio, crises agudas de demência que, acalmados os ânimos, virada a página, nos deixam estupefactos pela forma como a realidade pode superar a ficção mais arrojada.
"Cisnes Selvagens", é um livro que contêm o relato de Jung Chang, sobre um periodo de loucura relativamente mal conhecido, perfeitamente desconcertante. Vale a pena lê-lo. Mais que não seja, servirá para reflectir-mos sobre a incongruência da chamada inteligência racional!
...Levianos, temerosos e inseguros, os homens, parece conseguirem tranquilizar a consciência, refugiados no instinto de sobrevivência com que justificam a adopção de convicções que lhes chegam mastigadas, em aberrantes manuais de propaganda. Impotentes, prepotentes, não se poupam a esforços para manterem os neurónios em repouso e, assim evitarem decidir sobre a própria vida.
Uma vez convencidos de estarem protegidos por um líder que aceitam venerar enquanto este lhes pisa os calos... recebida a garantia de que no mundo existe alguém mais miserável que eles próprios... a loucura, poderá durar por tempo indeterminado e a perfídia chegar onde nunca alguém ousou imaginar!
...Estranha, a inteligência racional deste animal que se diz superior!

domingo, agosto 20, 2006

Quase ufana, a malta arrisca-se a precipitar-se num ismo qualquer. Mais uma vez! Desta, ser ou não Ariano tem pouco a ver. A coisa agora, à escala global, passa por parecer querer ser saudável! Sempre alegre e estável! Muita melanina, muita massa muscular, abaixo os tabagistas, os tipos com bigode, a meia branca, abaixo o tecido adiposo acima do zero, o pé de galinha. Viva a banda gástrica, a lipoescultura, o branqueamentos de dentes e haveres, o antidepressivo, o shot rapido e eficaz, a tonteria de um tracinho que nos aguça a moleirinha e faz parecer rápidos e concisos, versados nisto e naquilo, ágeis e argutos, astutos, pequenos Deuses quase perfeitos não fora um ou outro peidinho...
Nunca gostei dos ismos! Dá-me náuseas. Relembra-me erros de outros tempos.

quinta-feira, agosto 17, 2006

A acreditar no Expresso, o Millennium ofereceu a Miguel de Sousa Tavares uma quantia que rondava os 250 mil euros. Este, teria em troca, de ceder a sua imagem para uma campanha publicitária com que esta entidade bancária pretendia influenciar determinado tipo de consumidores!
O homem, invocando que a sua actividade jornalistica não é compatível com publicidade, recusou.
Num tempo em que o dinheiro parece servir para comprar tudo e em que a maioria se dispõe a dizer ou fazer, não importa o quê, em troca de bem menos, o facto, parece estranho!
Talvez que a sua situação financeira lhe pudesse ter facilitado a recusa... contudo, não resisto a imagina-lo como um dos homens que se quer livre e que, por isso, não está à venda nem padece de soberba.

Já agora; gostei de ler "O Equador"! Para além do leitor comum, a "corte" Portuguesa em particular, deveria ler e reflectir sobre este romance histórico. Talvez assim, pudesse mudar a mentalidade que, no essencial, lamentavelmente, permanece igual aquela que tinha em 1900!

quinta-feira, agosto 03, 2006

Circalhada

É no circo que os porcos andam de bicicleta. Que os palhaços... ricos e pobres, alimentam o personagem com contendas, ilustrações de metáforas que, vá-se lá saber porquê, regozijam e fazem rir o público. É no circo que os elefantes se equilibram numa perna só, que os homens aceitam ser serrados ao meio, andar no arame sem rede, serem disparados de canhões ou até de marcharem contra os ditos!
Os números, são cada vez mais arriscados e surpreendentes. No tempo que que os lucros da banca não param de crescer e em que lhes é permitido aumentar o que bem lhes apetecer, é apertado o espaço de quem se recuse pagar licenças para sacar ou não queira ser sacado e, mais grave... é apertado o espaço de quem confesse não querer enriquecer!...
Se um malabarista consegue por a rodar no ar dez bolas de fogo sem se queimar, logo se vê obrigado a ensaiar um número com doze. Se um domador consegue fazer com que um macaco toque violino, logo deverá começar a dar corpo a uma orquestra de vários macacos a tocar vários instrumentos!... É assim a vida no circo!
...Neste particular, Portugal, parte integrante do mundo ocidental - o mundo rico e pujante - está no seu melhor... a quantidade de coelhos a sair da cartola, não pára de aumentar. Os directores do circo - financiados por malabaristas que detêem fundos inesgotáveis enquantos os palhaços andarem à estalada - compraram Jipes, deram provisão a contas em ilhas distantes e, propõem apresentar um fantástico e espectacular número, em que os animais amestrados, vão andar de bicicleta sem mãos, sem pés e... sem bicicleta!...
...Tendo em conta a qualidade dos animais em pista, sou levado a acreditar que este desafio poderá ser largamente superado e por isso, a fasquia deverá, antes mesmo de ter sido superada, de ser posta um pouco acima.

quarta-feira, julho 05, 2006

A fuga em frente

O ritmo a que se entende forçado a levar a sua vida é superior à sua pedalada?
...Não faz mal: tome um estimulante e vá em frente.
Por ter ido em frente, bate com a testa na trave e fica ferido, deprimido? ...A sua esposa é uma vespa, o seu marido, uma besta?!... Não se deixe perturbar; tome um antidepressivo e disfrute do poder de ser quem é não sendo!
...Tendo sido quem é não sendo, vê-se confrontado com distonias, arrelias que lhe inundam o estômago de ácidos fora de tempo e lhe provocam arritmias ou perturbam os ciclos normais do sono?!... Não se preocupe. ...Você tem de ter muita calma e, para isso, tem ao dispôr um antiulceroso milagroso que em simultâneo lhe inibe a secreção gástrica desatempada, uma benzodiazepina com efeito calmante que lhe tranquiliza a mente e lhe permite não se incomodar com a malta que lhe mete o dedo pelo cu acima, que o pica e arrelia, sendo que... ao deitar, pode ainda reciclar a merda que fez durante o dia. Não pensar, fazer delete e mergulhar num soninho de anjo.
...Tem crises de asma, alergias? Vê-se confrontado com uns parvalhões que lhe dizem que tudo tem a ver com a qualidade do ar, com níveis alarmantes de ozono, com os tóxicos que comemos, com a habituação à medicação que o prende ao balcão da sua farmácia preferida?!
Mande-os lixar! Você, bem conhece os anti histamínicos, os bronco dilatadores de curta e longa duração com ou sem cortisona, sabe que, se o Ventilan e o Brisomax não funcionarem, há ainda o Assieme e que, se ainda assim estiver enrascado, pode ser ventilado, entubado e aspirado num hospital do estado ou num privado...
Sente-se enfartado por ter comido meio queijo castelões e dois leitões? Não sofra mais! Para que pensa você que existe o Compensan, o Eno, o Primperan ou o Legalon? ...Imagine que, ainda assim a coisa não vai lá... que é vítima de uma descarga e fica de caganeira um rôr de tempo... acaso não conhece o Motilium e uma infinidade de medicamentos amigos que lhe permitem continuar a fazer as besteiras de que tanto gosta e que lhe trazem cor à vida?!
A situação vai de mal a pior? O médico diz-lhe que tem a vesícula cheia de pedras? ...Amigo, por que espera? Tire a danada fora, que é uma operaçãozita cagada e a vesícula não está lá a fazer nada.
Tem um joelho cheio de artroses que lhe dificulta o andar? ...Por que raio é que tem de aturar esses malucos que lhe segredam quase a medo, que tudo isso tem a ver com carências, sobrecargas metabólicas, sedentarismo?... Amigo... o que essa gente quer, é atrofiar-lhe o homúnculo! Mande-os à merda! Compre um analgésico, um antinflamatório, e já agora, o omeprazol para não ficar com o estômago inflamado! Ainda assim o joelho teima em doer?! Vá a um hospital particular (que é mais rápido), tire uma radiografia, uma eco, uma ressonância, ponha uma protese e... toca a andar!
Rebentou com a carteira e ficou deprimido? Não se deixe abalar. Telefone a uma instituição de crédito rápido e comece tudo do princípio... Vai ver que não doi nada e que tudo vale a pena!
Entretanto, já sabe... não mude de emprego, não mude de atitude, não mude de alimentação, não mude de vida... acima de tudo não mude, não reaja, não se insurja nem se ponha a pensar ou a inventar... você, pode aguentar! Sabe, que pode sempre confiar no comprimido amigo e ver o mundo da côr que escolher (pagando claro!).

quinta-feira, junho 29, 2006

Genéricos

Por môr de quem, é que um médico que passa receitas com a comparticipação do estado, pode continuar a optar por receitar medicamentos de marca; duas, três e quatro vezes mais caras do que o genérico?
Se a esmagadora maioria dos utentes, não entende muito bem o que é um genérico, já o mesmo não se passará com os responsáveis pela gestão dos dinheiros públicos que, neste caso, continuam a engordar multinacionais farmacêuticas.
Eu cá para mim, 500mg de amoxicilina, são 500mg de amoxicilina e prontos! ...Independentemente da marca que lhe quizerem pôr. ...E não me venham cá com estórias de que... ah, mas é que... e não sei quê que mais... é que a fiabilidade... e tal...
Se os genéricos estão falsificados, estamos a ser enganados e a coisa deveria de ser tornada pública de vez. Se não estão falsificados, estamos a ser enganados também!
Então, mas tá tudo parvo, há medinho de beliscar multinacionais poderosas ou, há interesses inconfessáveis?

quinta-feira, junho 22, 2006

Um congressista bem intencionado

Foi relutante que subiu ao palanque. De lá, muitos tinham já botado discurso, denunciado e dado corpo a problemas, lançado alertas e suspeitas, criado polémicas... e, se um ou outro não o tinha feito à toa, a maioria limitara-se a escolher algo que no momento lhe parecia errado, encontrar um pressuposto culpado, apontar as baterias, e vai de o desancar sem dó nem piedade, através de exercícios de oratória que mascaravam frustrações e alimentavam a vaidade. Alguns ainda, mais ladinos, tinham na manga objectivos e ambições inconfessáveis, pelo que utilizavam uma retórica hipócrita, procurando levar a àgua a um moinho pequenino, que tinham no umbigo.
Subia hesitante, cheio de dúvidas nos princípios e conceitos herdados, espartilhado entre correntes, teorias e doutrinas e, se por um lado pretendia cultivar a humildade, a honestidade e a verdade, por outro desconfiava que essa sua pretensão pudesse não passar de presunção e no fundo fosse apenas uma forma de ocultar impotência e mediocridade.
Daí a relutância em subir e falar o que quer que fosse, de definir objectivos, traçar planos ou estabelecer prioridades. Tudo, por medo que algo pudesse dar para o torto ou até de se ver caido em tentação e ser apanhado a partir, a repartir e a servir-se da melhor parte, escudado na comum necessidade de não ser um parvalhão e acusado de falta de arte!
Era grande a tentação de não subir, quase tão grande como a vontade de mudar a realidade em que se via mergulhado e que, o incomodava e chegava a ferir em sítios fundos que não sabia definir.
Ainda assim subia, gostava de pensar que assumia risco! Subia, sem saber que uma multidão contratada por profissionais do ramo, marcava presença e se dispunha a demonstrar um vivo interesse em ouvir e apoiar o que quer que fosse dito. ...Uns para pagar ou obter favores, outros mais simplesmente em troca de um almoçinho, de uns copos de vinho, um dinheirinho... todos, se dispunham a acenar bandeirinhas, ovacionar, entoar palavras de ordem bem colocadas por profissionais cada vez mais especializados e competentes!
Discurso feito, espalhada a esperança, haveria gente que em troca dela e por se entender dela necessitada, se encarregaria de o levar em ombros a troco de nada, bradando aos sete ventos que era ele o salvador, o herói de que todos precisavam. ...Assim ele se empolgasse e deixasse fluir boca fora o que os especialistas contratados por quem na sombra o apoiava, lhe tinham injectado nas veias, reunião após reunião, congresso após congresso, palavra por palavra, através de métodos científicos modernos, com excelentes resultados comprovados.
Subia hesitante... mas à medida que subia e ouvia a multidão orquestrada a entoar o seu nome cada vez mais alto, deixou-se invadir por uma inebriante euforia que, como que por magia o tornou determinado.
Vencidas as dúvidas, limpo o picárro com que se chama a atenção a quem cabe ouvir, lançou-se delirante e apaixonado num discurso em que se dispôs a prometer, tudo o que quem o tinha feito subir tinha programado!...
Mais tarde, quando a culpa das promessas não terem sido cumpridas lhe caíu em cima e o tapete lhe foi retirado à medida que por necessidades estratégicas um novo personagem ia sendo promovido e incitado a subir ao palanque... ficou danado! Não fosse a fatia com que à cautela - enquanto partia e repartia - tinha ficado, e tinha dado o tempo por mal empregue. Assim, tirou umas férias para reflectir e preparar o regresso na pele de um novo personagem.

sábado, junho 17, 2006

Um peito cheio de vazio 6

Depois de tudo isto organizado, dividido o mundo em maus e bons para facilitar, pôde finalmente a elite do topo, começar a usufruir de algum lazer e, no entrementes , dedicar-se a sofisticar os meios de controlo para que tudo continuasse da melhor forma com um esforço cada vez menor.
Inventaram a muralha, a fronteira, o imposto, a moeda, o cunho, a multa e a pena, o pecado a confissão e a absolvição, da moca evoluiram para o canhão, para o agente de informação, o especialista em especulação, o cobrador de fraque... enfim, uma revolução que, se convenceram e apregoaram, de muito prática e de grande utilidade.
Entretanto, desse subgrupo da maioria - essa minoria tresloucada de que foram recrutados os soldados, os fiscais, os representantes legais e todos os outros que por terem na mira poleiros em lugares destacados, se tornaram capazes de seguir códigos e condutas de fazer arrepiar -, sobrou uma gente que se revelou impossível de ser seduzida, por melhores que fossem as promessas ou mais brilhantes os mundos e fundos apregoados! Avessos a este progresso, recusaram as condições de acesso e, não só não aceitaram licenças para cobrar impostos, como se recusaram a pagá-los! Diziam-se capazes de enfrentar o medo, teimavam em andar em bolandas em busca de melhor forma de vida e, não contentes com isso, insistiam em defender a maioria a que diziam pertencer, sem se importarem se ela queria ou não ser defendida. Afirmavam que era ingénua, e que, por ter vindo a ser embalada com canções do bandido e hipnotizada com néons de todas as cores... representava um perigo e não se encontrava capaz de decidir o que quer que fosse!
Teimosos, em vez de uma vida estável e tranquila, do usufruto de uma ração de subsistência que, embora pequena, lhes poderia vir parar à mão em troca de cooperação, esta gente renitente em aceitar as facilidades oferecidas, insistia na busca de melhor sorte, saltava cercas, fronteiras e muros que delimitavam zonas interditas com que não se conformavam, e arriscavam ser apanhados em finas teias fabricadas pelos próprios familiares e amigos, pelos compadres e, claro, por gente sem rosto... mandatários e mandados, carrascos e vítimas... uns e outros, movidos por medo e ambição.
Nessas jornadas atribuladas, nesses caminhos desconhecidos em que deambulavam para manterem a rédia larga, não raro, davam por si em zonas francas, bem para lá do que a vista alcançava (uma espécie de off shores desse tempo..), e ficavam embascacados com a facilidade com que se conseguia lá operar e retirar uma boa mais valia, pactuando com essa espécie de regime, esse submundo, que sem dúvida existia, sob um manto nebulosos de estranhas regras inventadas por quem tinha a faca e o queijo na mão e, como é bom de ver... interesse nisso! Mas, a maior parte das vezes, no dobrar de cada esquina, a coisa fiava fino e viam-se obrigados a botar sebo nas canelas e a largarem-se a bom correr. Faziam-se à travessia de desertos ou lançavam-se silvados adentro, sem escolher para onde iam e sem ligar aos estragos que essas fugidas lhes causavam na farpela, porque assim não sendo, o mais certo... era verem-se metidos num circo em que, enjaulados e amestrados à força de fome e chicote, pudessem servir de exemplo!... Seja lá pelo que fosse, há muito que ninguém lhes põe a vista em cima e, se uns acham que eles estão extintos, outros, preferem especular sobre embuçados e seitas secretas que se movem nas sombras em busca de iluminados.

Continua.

domingo, junho 11, 2006

Um peito cheio de vazio 5

Para levarem a cabo a coisa, quer dizer... para se manterem no topo, apoiaram-se precisamente nos que a fome e as carências tinham tornado menos escrupulosos, mais afoitos e perigosos, e que, por isso, eram a razão daquele incómodo constante.
Chamaram-nos à parte e, com um discurso demagógico aveludado, encheram-lhes os ouvidos de metáforas que falavam de sapos transformados em príncipes, gatas borralheiras escanzeladas preferidas a princesas ricas e roliças, taludas desencantadas no desespero das bolsas necessitadas, camelos a passar pelo buraco de uma agulha, nuvens fofinas cheias de virgens... e, com promessas quixotescas da entrega de reinos distantes para todo o sempre, ofereceram-lhes formação no manejo da moca, entregaram-lhes fardas e, em troca de total e incondicional dedicação às causas intrínsecas, garantiram-lhes uma ração diària reforçada, com sobras da primeira escolha. Em seguida, numa cerimónia bem composta, pensada ao promenor para exarcebar o orgulho e alimentar a vaidade, investiram-nos em postos de prestígio garantido, entregaram-lhes couraças, distribuiram medalhas, fizeram deles guardas, descobridores especializados na busca do que açambarcar, guerreiros e conquistadores que entravam a matar para tomar posse, vendedores de golinhos de àgua a preço de ouro nos desertos, e, aos mais fuinhas, transformaram-nos em fiscais, com a missão de apresentarem relatórios detalhados sobre o desempenho dos outros!
Aos mais ladinos, acharam por bem mantê-los ocupados no fio da navalha, na linha da frente, em duras missões de alto risco que, de tal modo exigiam acção e total concentração, que não permitiam pensar e por isso arquitectar o que quer que fosse...
Todos (de primeira, de segunda, ou rasos), recebiam a ração, conforme a prestação.
...Prestada a vassalagem, tornadas inquestionáveis as ordens superiores que os libertavam da culpa das barbaridades que iam cometendo, recebida a garantia de mundos e fundos, de vantagens transcendentes em acções e combates que se dispuseram a levar a cabo contra quem e onde quer que fosse, tomou forma uma classe, disposta a avançar conduzida e sem pensar, num nunca mais acabar de conquistas, quais fiéis em guerras santas com os olhos postos nos saques.
Investidos nesses cargos, passaram a construir a realidade com todo o à-vontade e, com base na crença adoptada de que "o mal", era com certeza o resultado da obra do Diabo,
enjeitavam qualquer responsabilidade no que pudesse dar para o torto! Ainda assim, se a coisa não lhes corresse de feição, tinham como recurso, uma série de rituais para utilizar segundo as necessidades e, orientados por especialistas, podiam sempre aceder a um Deus supremo e pedir para interceder e colocar as coisas, no lugar!
Em troca de um sacrifício, feita que fosse uma promessa, entoada cabeça baixa uma ladainha... era esperada com certeza, boa sorte para levar a cabo um massacre, com a mesma naturalidade com que se rogava o fim de uma tempestade, de uma doença maléfica ou de uma fase de má sorte!...
A maioria, aquela gente que de tal modo obsecada em se "safar", nunca enjeitou estar de bem com Deus e Com o Diabo, aquela multidão que como um rebanho em busca de erva tenra e fresca, passa a rapar sem parar ou pensar e, que sem saber porquê acredita não ter nada a ver com nada e gosta de balir... aderiu, muito bem a este estado de coisas.
Sumissa, no encalço de benefícios, aceitou cada ultraje, cada pedaço de sofrimento, cada violação ao recôndito mais casto da alma... e, era vê-la, a trocar sacrifícios por mais valias, confissões por perdões, acções por intensões...
Aderiram, também, não fosse serem confundidos com inimigos e, entendidos como infiéis, encostados à parede e varados lado a lado sem piedade.


Continua

quinta-feira, junho 08, 2006

Um peito cheio de vazio 4

Temos por isso que, enquanto uns poucos contestavam, penetravam em feudos de onde às escondidas sacavam o que podiam, e que para além disso ainda aliciavam a maioria para se lhes juntar, por outro lado, essa maioria que confundia a humildade com a subserviência e que, pela sua natureza se dispunha a fazer o que lhe parecia o melhor para sobreviver e se contentava em usufruir das sobras, sentia-se realizada em sonhar com castelos no ar e aceitava perfeitamente, que muito mais vale um pássaro na mão que dois a voar!
...Por ter ouvido, chegou até a acreditar e a passar de boca em boca, que quanto maior for a miséria em que se viva, maior será a felicidade durante a eternidade! ...Por qualquer razão, talvez em jeito de compensação, isso parecia fazer-lhes sentido!...
Os chefes, se bem que no geral se sentissem regozijados com os resultados conseguidos pelos métodos utilizados - o levantar da moca, o desferir a pancada, o gritar e assustar para gerar medo e enxotar, o cultivar o segredo, o adensar o mistério... -, não se conformavam com a trabalheira a que se viam obrigados, para continuar a conquistar e a manter, o poder em mão fechada! Frustrados, por não se poderem entregar totalmente à parte doce da vida, saturados da necessidade constante de olhar por cima do ombro para proteger a retaguarda, talvez até... ressentidos, feridos no orgulho por derrotas sofridas e saques desabridos levados a cabo por esses revoltados pobres e mal agradecidos... resolveram fazer-lhes face, com uma tàctica inovadora : engendraram uma hierarquia, puseram-se no topo, e distribuiram lugares privilegiados pirâmide a baixo. Os de cima mandavam nos outros, e os mais baixos de todos, que não mandavam em nada e suportavam toda a estrutura, cumpriam o que lhes era ordenado com a garantia de tudo ter já sido, muito bem pensado. E isto, veio a revelar-se um enorme sucesso.


Continua.

sábado, junho 03, 2006

...dasssssse!

O Mundo visto de uma perspectiva, está dividido em dois lugares. Num, parece fazer sentido a lipoaspiração, as cápsulas para queimar calorias, os inibidores de apetite...
No outro, a vida esvai-se por falta de um pouco de água, de um simples prato de farinha...
Talvez por isso, no primeiro, se consumam tantos antidepressivos, ansiolíticos e drogas... para não sentir mal estar, bem dispôr e fazer rir!...

domingo, maio 28, 2006

A conspiradora

Estava eu a cogitar sobre os meus problemas, com a agenda carregada para o fim de semana, tentando conciliar uma sardinhada com uma mariscada, ralado com a mancha de humidade do canto da sala da casa da cidade, preocupado com a outra mancha que me dizem ser da idade, com a falta de tempo para ir ver todos os filmes que me dizem ser "a não perder", e assistir a europeus, concertos e mundiais... perturbado com umas prestações do jeep em atraso... enfim, uma carrada de problemas... e, quando dei conta, estava numa pilha! Num stress que só visto!... Vai daí, o que é que eu pensei? ...Bom, a coisa está preta... e disse para comigo: Zé Manel, tens de relaxar!...
Ora, uma coisa que me relaxa, é sentar-me um bocadinho em frente ao computador e entreter-me a visitar blogs, ler comentários divertidos que plantam uns nos outros para ganhar amigos, ver as picardias e assim... quando, dou por mim no blog de uma besta (que não tem outro nome!), que, em vez de divertir... não senhor!... Pespega-me com um post que nos remete para um video qualquer (sabe-se lá feito por quem e com que intenção...), sobre o Sudão... e não sei quê... que andam para lá uns dois milhões ao Deus dará, amontoados em campos de refugiados de arrepiar e não sei quê... no meio de dejectos e em que se queimam vivas crianças amontoadas e tal... e que as vítimas são violadas por quadrilhas endoidecidas... e que isto e mais aquilo... e que não se fala mais disso porque o Sudão não interessa a ninguèm (pelo menos para esta doida, parece ter algum interesse!!!...), e pátáti e pátátá... porque se o Sudão tivesse petróleo já os Amaricanos lá estavam a salvar aquela gente.... e que a Condoleza isto... e o Bush aquilo... e que a comunidade internacional é um bando de hipócritas... e que as agências de notícias já não são de informação, e que estão na mão de não sei quem e que só divulgam o que não sei quem quer... e que a ONU está na mão de uma Amaricana... e que o Sudão isto... e que o Iraque assim e o Irão assado, e que o Afeganistão isto... e mais os Amaricanos...
...Olhem... um chorrilho de disparates, um fanatismo alucinado, suportado por imagens que, só podem ser montadas!...
...Se aquilo fosse verdade, era notícia de abertura em todos os telejornais do Mundo! Capa de jornais e revistas e, na rádio, não se falava em mais nada enquanto a coisa não estivesse resolvida! O Sudão, à imagem do Iraque e do Afeganistão, estaria com certeza, cheia de capacetes azuis, forças de segurança Amaricanas para restabelecer a ordem, e nós, claro, já para lá tinhamos mandado forças especiais! ...É, ou não é?!
...Com que direito é que esta besta (que não tem outro nome!), vem poluir este espaço em que a pessoa se pode relaxar e entreter, plantar comentários divertidos em busca de admiradores e amigos, partilhar imagens de quedas e acidentes hilariantes, curiosidades e piadas picantes... e, acima de tudo, rir a bom rir?!
Acaso esta besta (que não tem outro nome!), que anda para aí a perturbar quem tem a vidinha montada e tem de se preocupar com os seus próprios problemas... acaso sabe, que rir dá saúde e que as ralações, nos fazem aparecer rugas e tiram anos de vida?!
Que tem lá ela a ver com o Sudão?! Onde raio é lá isso?! Que direito é que ela tem, de se meter lá nos assuntos deles?! Acaso é ela Amaricana ou da familia do Sudão?! Hum?!...
Se ela se importa tanto com a miséria, porque não vai ao Rock in Rio em Lisboa, e mata dois coelhos com uma só cajadada?
...Agora, por causa daquela tarada, daquela besta (que não tem outro nome!),estou aqui que nem me tenho, com uma sensação estranha, com um nó na garganta que não sei explicar e mesmo sabendo, que tudo aquilo é uma treta de mau gosto, vou ter de tomar um antidepressivo e dois ansiolíticos, senão, não arranjo disposição para ir comer a mariscada e aguentar dar um saltinho à sardinhada!...
Por via das dúvidas, e para que não caiam nas ratoeiras que só pretendem plantar-vos na alma, traiçoeiras sementes de indignação, sinto-me obrigado a vos mostrar, como esta gente actua para perturbar a paz e o bom viver! Ide... ide ver, aqui. Mas não vos esqueceis... dai de fuga quanto antes para não virem a sentir sensações estranhas para as quais não há explicação e que só passam com comprimidos que só se vendem com receita médica (ou talvez não!)!

quinta-feira, maio 25, 2006

Um homem de sucesso

Homem de família, católico mais ou menos praticante, adepto comedido mas sofredor q.b. de um clube dos maiores, chegara a casa com a sensação do dever cumprido. Como quem limpa o cú a meninos, tinha vendido mais um carrinho. Um veículo com dez anos como novo, pertencente a uma velhinha. Negócio limpo, tinha dado para por a conta a positivo, pagar a prestação em atraso do andar, encher o peito de ar e levar a amante a comer uma mariscada! ...Num toma lá dá cá, tinha safado a vidinha e fodido mais um amigo!...

segunda-feira, maio 22, 2006

Um peito cheio de vazio 3

Orgulhosos das façanhas que foram descobrindo serem capazes, ganharam confiança, emergiram, e tornaram-se chefes de uma tribo despojada que, cada vez mais raquítica de sedenta e esfomeada, se agrupou à distancia que o medo lhes permitiu e, aceitou resignada ter sido arredada do que sempre julgara pertencer a toda a gente.

Ainda hoje não se sabe, se foi a necessidade, a cobardia ou a estupidez, que fez esta tribo desenvolver a arte de adular, respeitar e admirar quem a pisa e subjuga!...
Ainda hoje há quem pergunte, que raio se terá passado, para que tenha vindo a aceitar levar no lombo, e aguardar pacatamente cheia de esperança, uma oportunidade para enganar as tripas, com as parcas sobras lançadas do topo...

À medida que as fortunas foram crescendo, a miséria foi graçando. ...No seio dos espoliados, despontaram pequenos grupos de gente revoltada, alucinados pelas carências, autenticos focos infecciosos que irritavam, debilitavam o sistema e se recusavam a prestar vassalagem. ...Insistindo não terem nada a perder, dispunham-se constantemente a avançar, em mais ou menos tímidas pilhagens, aceitando o risco de ver rachada a cabeça como um preço a pagar, por uma vida mais airada!
Ora... isto, exigia à gente do topo (que punha e dispunha e que sem pejo se servia do que havia conforme entendia...), um alerta constante!...
Viram-se forçados, a instituir rondas diligentes com a moca ao ombro para impressionar e dissuadir, para mandar abaixo e quiçá até, destruir, quem, lhe viesse à ideia sair da linha e desafiar o destino.

Não raro porém, um ou outro membro desta elíte - menos hábil no manejo da moca, ou mais molengo de tão cheio dos banquetes -, foi botado abaixo à mão, por um destes grupos de famintos desvairados que, para além de procurarem por todos os meios, evitar andar a mando dos que chamavam de brutos, ainda incitavam os compadres a se lhes juntarem e, a fazerem também sua aquela luta que, claro, achavam justa, tendo em conta a posição em que se encontravam e de onde olhando, viam: uns, fartos com demasiado, e os outros, que de tão vazios e carentes, nem conseguiam digerir o que se lhes dava!...

Segue, Um peito cheio de vazio 4.

sábado, maio 13, 2006

Quinto Império

Foram tantas as guerras, os desatinos... tantos os dramas e momentos de dor... que acabaram por se render à evidência da urgência de descobrir caminhos e entender, melhor, o amor!...
Para trás, ficaram confrontos, desencantos, cantos e ilhas, mal entendidos nascidos de histórias mal contadas, equívocos e ressentimentos... cujo significado, de tão puído, se esfumara.
Parecido perdido o tempo... tinham ganho! ...Sobrevivido a batalhas que, se às tantas perderam o sentido, não deixaram de o ter tido.
Investido o que sobrara no afecto, no querer ver a todo o custo o "outro" bem... no projecto que, de tão distante da matéria só a alma o formava... viram crescer uma razão para a vida que os animava e, se numa ou outra encruzilhada se sentiram pobres e perdidos, olhos nos olhos... mãos nas mãos dadas... se descobriram enriquecidos.

terça-feira, maio 09, 2006

Um peito cheio de vazio 2

Tudo terá começado, no preciso momento em que um antepassado longínquo descobriu (dizem uns que por mero acaso, outros que, por desígnios transcendentes), a arte de rachar cabeças com uma simples moca. Essa descoberta, parece ter sido extraordinária!... Surpreendentemente, uma mocada bem aplicada, não só acabava em menos de nada com uma rixa, disputa ou teimosia, como tornava possível a quem desferia a pancada, estabelecer objectivos e fazer cumprir regras, sem mais, nem quês!
Boquiabertos, os membros do pequeno grupo em que a descoberta aconteceu, cedo verificaram a facilidade com que podiam chegar, impôr a presença e até expulsar os outros, dos locais de abundância. E isso, que para além do mais lhes permitiu confortar o estomago a seu belo prazer, como é bom de ver, tornou-os mais fortes e robustos.
Libertos da fome, constataram com agrado terem vindo a ficar com o peito mais cheio, os ossos mais compactos e, um crâneo em que sobressaia uma fronte mais alta e larga, parecia confirmar a superioridade dessa espácie de raça que, dominante, entendia merecer sem favor cada conquista, e via a ambição crescer desmesurada, como um dever.

quarta-feira, maio 03, 2006

Mea culpa

Num dos poucos momentos que tenho tido livres para bloggar, fui, de blog em blog, dar a um post do Alien's Corner que, alertava para o facto de que quem tem um blog, tem um mínimo de obrigação de o actualizar! A razão principal que me fez cair em mim e dar a torcer o braço, é que, quem nos visita e não é avisado da nossa indisponibilidade para blogar, anda a clicar em vão... sem necessidade!... Muito mais valia avisar da interrupção, com ou sem explicação! Coisa simples esta! Mas, confesso, nunca tinha olhado para a coisa por esse lado! Por isso, peço desculpas.

...Já agora, vou contar a história de um homem, com o peito cheio de vazio:

Uns diziam que ele nascera em berço de ouro, outros, que fora com o rabo virado para a lua!
Fosse como fosse, o certo é que crescera feito senhor de propriedades, capacidades e saberes superiores e que, sem saber como, se encontrou servo de um Deus herdado que, se bem que não entendesse ou sequer lhe servisse para reflectir sobre a sua essência, ainda assim lhe chegava para acreditar ter sido O escolhido e nessa condição ter nascido, com o destino traçado, protegido, em qualquer sentido e a toda a hora inspirado, por forma a cumprir a senda que, no seu magnânimo entender era a razão da sua vida; conduzir a populaça, mantê-la mansa e ordenada.

Com base numa crença antiga, numa cantiga que fala de filhos legítimos e de bastardos, assumia ser o justo herdeiro dos tesouros conseguidos pelos seus antepassados; bárbaros guerreiros, macumbeiros, poderosos feiticeiros, ilusionistas, gente... que recorrendo a artes e maroscas, foi saindo dos terrenos pantanosos e, avançando trevas fora, lhe tornava agora possível feitos, voltas e truques, que deixavam de olhos tortos quem o fixava, e deixavam para trás quem o quizesse acompanhar!...

Segue, "Um peito cheio de vazio" 2.

segunda-feira, abril 24, 2006

sábado, julho 09, 2005

Razões submersas

Sem saber como, foi dar com a imaginação a galope transpirando libido. Solta, ia dando corpo a saudades, dos seios aveludados em que em tempos repousara e se sentira, protegido. Seios, que acariciara sem culpa nem maldade... entregue ao puro gozo a que nesses tempos se permitia.
Sem saber porquê, deu por si constrangido, invadido por culpas sem lhes apanhar o sentido! Em conflito, à cautela, inibiu o impulso, contrariou o instinto e, reforçou a blindagem que lhe permitia viver em conformidade com a moral prevalecente como um homem de sucesso e, se bem que frustrado, ficou mais descansado, mais próximo da certeza de não ser um pervertido daqueles, que lhe habitavam o imaginário.
Protegido assim o Ego, couraçado, retirado dos dentes o freio à besta, partiu duro e frio, disposto a vender caro o seu desprazer, decidido a fazer-se obedecer pelos escravos que mantinha acorrentados para disfarçar instintos de que sem saber porquê, tinha vergonha!
Talvez por isso, de sabre em riste ele era o maior valente, de chicote na mão castigava quem mexia, sem dó ou piedade... na guerra, era um mestre e, no geral, a fazer sofrer é que compensava aquela frustração para a qual não encontrava saida.
À noite, com as mãos ensanguentadas dos crimes que fazia e que, esses sim, a moral prevalecente permitia... programava o futuro. Naquele dia, já tinha decidido... ia fazer rastejar as massas, mandar produzir mais canhões e, a seguir, ia matar leões, antes que se acabassem!... Já que tinha que sofrer, não iria sofrer sozinho!...
Deixava soltar um suspiro e caia docemente no sono como um anjinho, balbuciando: mamã.

quinta-feira, julho 07, 2005

Continuação 7

Van Gog, chegou a não ter dinheiro para comer e, não fora o apoio do irmão, não teria pintado muito da sua obra! O que ao tempo não tinha qualquer valor, é hoje, disputado por verdadeiras fortunas! ...Que contra senso é este, que leva os homens de "sucesso" (gente com os bolsos a abarrotar de dinheiro), a comprarem por tais quantias as obras pintadas por um "louco", ou, será melhor dizer... por um doente mental?!...
No início do sec XXI, passou-se em Portugal um facto, que ilustra claramente o que pretendo dizer: em cerimónia publica, o Estado, agraciou com uma medalha de mérito, Stanley Hoo, também conhecido como, "o rei dos casinos"! Justamente ao mesmo tempo, evitou receber oficialmente o líder espiritual do povo do Tibete... um Nobel da paz, um homem de inquestionável valor que enriquece quem o ouve!... Ao que parece, o Estado Português, prisioneiro de conjunturas e estratégias políticas e económicas, seguindo absurdas regras diplomáticas, prefere, através do jogo, enriquecer (?!) sugando-se a si próprio e, como se isso não bastasse, concede a quem dá a concessão para o sugar, uma medalha de mérito e, uma bela fatia!...
Factos destes, conduzem-nos á conclusão de que, a par e passo com este progresso que temos vindo a inventar, e, por muitas confissões que façamos, por muitas orações que balbuciemos... o nosso Deus, é, cada vez mais o dinheiro... convencidos de que, com ele, podemos comprar a felicidade e dominar o mundo do qual nos sentimos donos e senhores, ao vê-lo prostrar-se aos nossos pés, quando temos um punhado de notas na mão.
E, ai de quem ousar olhar-nos nos olhos, fazendo-nos frente, dizendo-nos em bicos dos pés, que não se submete ao poder que (presumimos), o dinheiro nos confere!... Essa, é uma das piores afrontas! Perante isso, esquecemos o significado das palavras que balbuciamos mecanicamente nos templos em que oramos pretendendo elevar-nos espiritualmente e, mandamos às urtigas os ensinamentos dos homens a quem chamamos Mestres ou Santos e dizemos querer seguir. Despeitados, dispomo-nos a meter o insolente na ordem e chegamos até a acreditar, estarmos a cumprir desígnios Divinos arrasando-lhe qualquer réstia de altivez ou dignidade e, sem piedade alguma, abandonamo-lo à sua sorte sem pejo (qual castigo/ensinamento), com a consciência de o virmos a encontrar despedaçado, pela máquina poderosa a que, o dinheiro/poder dá acesso.
Tão verdade hoje, como o era na pré-História ou na Idade média, esta realidade, continua a ser fonte de infelicidade e origem de muitas doenças...
Continuamos hoje, como sempre, a querer acreditar em contradições. Por um lado, insistimos em dizer, que o dinheiro não dá felicidade... que a saúde é a maior riqueza... por outro, destruímos a saúde numa luta desgastante, para ganharmos mais e mais dinheiro, na ânsia de não mais precisarmos dele e podermos (um dia) descansar e ser, "boa gente"...
Perseguimos a linha do horizonte que se distancia à velocidade com que nos aproximamos, na vã ilusão de a agarrar... apressados, queremos ir mais longe e, enquanto isso, não desfrutamos do que temos no lugar em que nos encontramos. Cegos para a realidade próxima, insensíveis para com a simplicidade, não vemos, que o excesso é tão nocivo como a carência e, fazemos dessa luta, dessa tonta correria, a razão da nossa vida!

sexta-feira, julho 01, 2005

Três em um

Ao que tudo leva a crer, a biomassa é uma fonte de energia que está a ser desperdiçada e para a aproveitar bastava limpar as matas abandonadas.
A limpeza das matas contribuiria para diminuir o desemprego, os fogos e quiçá, acabar com um negócio de aluger de aeronaves que a mim, me cheira mal.

quarta-feira, junho 29, 2005

O circo

O artista, pôs-se em risco sem temor! Dando o corpo ao manifesto, avançou para a pista, sem uma ideia cozinhada, uma cambalhota preparada, uma só palavra que fosse... na ponta da língua!
À ultima da hora, mandaram-no avançar para o centro e a única coisa que lhe garantiram foi, que os holofotes o iriam iluminar, fazendo-lhe notar que essa, seria uma bela oportunidade de brilhar, de mostrar o que valia a entreter e fazer rir, ou até, e porque não... a fazer chorar!...
Havia, no fundo, que entreter a malta, não fosse ela começar a patear, o que era muito mau, atendendo à fragilidade da estrutura das bancadas.
Socorreram-se dele, porque, o artista de serviço, com um número bem estudado, ao ver-se enleado nas cordas e argolas que tinha largado, sentiu o arame a fugir debaixo dos pés e, sem cerimónias, desenleou-se e lançou-se, seguro pelo guincho que o livrava de se estatelar e partiu, para actuar, num circo internacional.
...Surpreendentemente, o espectaculo ganhou cor com este artista que ficou e que tocava os sete instrumentos, dava cambalhotas direitas e tortas e, destemido, entrava no canhão pronto a fazer de bala humana, mas... os acrobatas que o acompanhavam, incapazes de lhes seguir os passos, os golpes de rins e os voos sem rede, cedo deitaram o número a perder... uma após outra vez, falharam uma recepção, um compasso, largaram uma corda, deixaram cair ao chão uma argola e, por último, os que brincavam a cuspir fogo, acabaram por se incendiar uns aos outros e causar, o pânico!
Hoje, o espectáculo está mais pobre! Dizem, que é para ser mais seguro... Só há um ilusionista, que tira da cartola uma sacola vazia com que se dirige ao público a quem pede para a encher... um número de ovelhas amestradas, que são tosquiadas na pista com as orelhas em baixo... e, claro... uma parelha de palhaços!... O rico... e o pobre, que, como sempre, passa o número a levar estaladas, e tão depressa chora baba e ranho... como salta, ri e toca a concertina... feliz de esperançado, em vir a receber um rebuçado!...

sábado, junho 25, 2005

Uma crença de mau gosto

Confia em mim!... Dizia o mastodonte ao brutamontes sem saber o porquê do que estava a dizer! Mas era escusado. O mal estava feito e iria continuar a ser feito, porque qualquer deles não tinha jeito... nenhum, para acautelar o bem do outro.
Confia em mim... dizia o bruto. O que achava, saber a razão da sua existência e teimava, em não dar o braço a torcer, enquanto não lhe estivesse a doer.
Confia em mim... dizia um, a quem... o quisesse ouvir. Mas já ninguém lhe dava ouvidos... Todos os passos tinham sido perdidos em labirintos reluzentes de palácios distantes e, a noitada, ainda agora tinha começado.
Falava-se... na altura, de profecias e conjecturas de sociedades secretas, de conjuras e medos, conspirações e segredos guardados, verdades antigas... perdidas... por gente tola e descuidada.
...Só que isso... não servia de nada! A realidade, construída por todos e cada um, implacável, impunha-se forte como se fora um megálito de chumbo sem dono. Um monumento ao qual... qualquer deles, cobardemente se dobrava, esperançado em obter respostas para perguntas que não tinha... e, subserviente, pelo medo do desconhecido... preferia aquela espécie de adoração, em vez de criar outra realidade a viver a própria vida!...
Confia em mim... diziam, um ao outro, com a mão cheia de nada que de tão vazia os iludia e levava, a fecha-la com a força de brutos que eram, teimando em acreditar lá estar encerrada, uma tal maravilha... que não dava para usar ou abrir mão dela!

terça-feira, junho 21, 2005

Continuação 6

Ainda que os mecanismos sejam pouco claros, é relativamente fácil encontrar uma relação directa entre o altruísmo, a disponibilidade para contribuir para a resolução dos problemas de quem nos rodeia, a vontade em fazer os outros felizes e a nossa própria felicidade e saúde!
Esse objectivo de vida, é, justamente o contrário de um outro, estereotipado e característico de uma sociedade muito competitiva, virada para o consumo, onde se pretende subir a qualquer custo sem perder tempo, pondo desde cedo em prática, a cultura do “cada um por si”, em que se valoriza o semelhante, em função dos bens materiais que ostenta ou que presumimos conseguiu acumular! ...Quem tem muito vale muito e, quem sabe... nos poderá ajudar a vir a ter, tudo aquilo que teimamos em acreditar ser indispensável, para a nossa felicidade!...
Daí, um tipo específico de reuniões sociais á laia de festas, onde as pessoas se procuram promover buscando atalhos para o “sucesso”, em que impera a conversa superficial e artificial, onde ninguém é sincero e se joga ao faz de conta, se vive da aparência e onde os meios para atingir os fins são cada vez menos questionáveis.
Ora, isto de pensar-mos uma coisa e numa ânsia cega para atingir-mos objectivos, fazer-mos outra, baralha o implacável e preciso sistema, do organismo profundo, que necessita de um equilíbrio e não se compadece com justificações esfarrapadas e contraditórias. Uma vez esse equilíbrio perturbado, essa contradição instalada, inicia-se um processo em que se vão manifestando disfunções aos mais variados níveis! Algumas dessas disfunções, manifestam-se ao nível do sistema neurovegetativo e estarão na origem de ulceras gástricas, tiques nervosos, arritmias, insónias etc. Perturbado o equilíbrio de zonas profundas, os sintomas, podem iludir o melhor dos médicos, particularmente se este não tem tempo, para analisar o doente em profundidade. E como se compreende, raro é o indivíduo que chega ao médico e diz: - Dr., estou aqui, porque quero subir na vida e para isso, não vi outra alternativa senão “comer a minha mãe viva”! Espezinhei o meu colega, entreguei os meus filhos ao “lobos” e, agora, não sei viver com o monstro em que me tornei! É provável que, este indivíduo, se queixe de dores nos ombros, tensão muscular, dores de cabeça, arritmias, insónias, disfunção eréctil... mas, iludido e enleado na teia da luta para o “êxito”, encara o seu comportamento como natural, legitimo e, essa perspectiva é reforçada quando, cedendo à vaidade à luz dos focos do “êxito”, se sente admirado e adulado, por uma série de abutres que pululam á sua volta (gente que sofre da mesma peste), oportunistas, que vivem da vaidade dos outros. E é assim, com o égo fermentado por tanta ambição, com o peito inchado de tanta presunção, que se dirige em crise, com a altivez que lhe resta, ao seu médico, a quem a troco de dinheiro exige que lhe faça desaparecer os sintomas e grande parte das vezes, com a arrogância á flor da pele, recusa-se a investigar e corrigir causas. É um indivíduo que tem pouco tempo, tem dinheiro e paga bem para o porem “bom”, sem suspeitar que esse trabalho, só pode ser feito por ele! Assim, sai do consultório com uma receita de analgésicos, relaxantes musculares ou calmantes, anti depressivos, anti ácidos e até inibidores dos ácidos, destinados a suprimir sintomas que, se recusa a interpretar como avisos, emitidos por um organismo profundo e inteligente, para um comportamento errado que teima em não corrigir, tendo em conta os objectivos que continua a perseguir obsessivamente, aplaudido por grande parte de um mundo que corre sérios riscos de se ver obrigado a encerrar para balanço!

A felicidade está demasiado ligada aos bens materiais. Numa sociedade de consumo como aquela em que vivemos, quem se vê impedido de consumir algo mesmo que supérfluo, sente-se inferiorizado e infeliz... na maior parte dos casos com aparente razão, uma vez que a sua auto estima é enfraquecida cada vez que se sente menosprezado, preterido, impossibilitado, não convidado... claramente por, apresentar sinais exteriores de pobreza, sofrendo todas as consequências que daí advêem!... Ele é o carro que não é novo, as roupas que não são de marca, a zona onde mora que não é prestigiada, o tipo de relógio que usa e uma infinidade de coisas que estigmatizam o indivíduo ao ponto de o fazerem desejar ser, quem realmente não é e até quem, poderá não se sentir bem a ser!

Exige-se a humildade do pobre, aceita-se a arrogância do rico e isso, tem repercussões na saúde, comprometendo até, a postura corporal! ...O pobre, anda mais dobrado!...

sexta-feira, junho 17, 2005

O rastilho

Estava longe a bomba! Era sempre o que se pensava e cada um achava que ela, lá tinha sido armada por alguém que não sabia o que andava a fazer! Era sempre assim! ...Quer dizer, ninguém era culpado de a lá ter posto. Agora o rastilho, esse, sabia-se bem quem o tinha acendido: fora um bando! Um bando grande e ao que se diz organizado, sabe-se lá por quem e com que fins!... O que é certo é, que esse bando agigantado, tornava o agigantar de um outro no extremo oposto, muito mais aceitável! Quer dizer... extremavam-se as posições, subiam as tensões, antigos combatentes já sem dentes vociferavam palavras de ordem que lhes tinham bailado na mente lá para as bandas do inconsciente e, até gente de bem, que teima em dizer não gostar de fazer mal a ninguém, espreitava a violência como forma de calar o medo e a insegurança! Os inocentes, gente fora de bandos, mais ligada à labuta que é ganhar honradamente o pão de cada dia, homens e mulheres de várias côres, olhavam-se de soslaio, com medo uns dos outros! Enquanto isso... gente sem rumo, saboreava a conquista do protagonismo, subia na hierarquia que estava à mão e, com o pelo na venta a crescer, o peito cheio de ar por achar estar a se afirmar... partia para aventuras que vira na televisão e tornava a fantasia realidade. O rastilho ardia. Ardia... porque se dizia, que a lei não permitia apagar o rastilho e, como se sabe, para mudar uma lei dessas, demora muito tempo, são necessárias muitas lutas, muitas batalhas de palavras, muitos pareceres e estudos especializados, muitos deputados agarrados a discussões politico filosóficas, muitas consultas à comunidade internacional, já que Portugal... gosta de tudo muito direitinho!... Era uma lei de difícil elaboração em nada comparável, com alterar leis laborais ou intruduzir novos impostos. O rastilho ardia, não se apagava. Quanto à bomba, isso então... nem pensar em desmontar. É que para isso, como sabemos, não há verba nem tomates!

quarta-feira, junho 15, 2005

Vamos lá a escrever á sorte, a escrever sem norte, a escrever sem intenção! Vamos lá a revelar o que de verdadeiro somos, a encontrar o que perdemos a oferecermo-nos uns aos outros... ou estão com medo?!
Vamos lá acreditar firme que algo em nós está certo, que o correcto é em função do agora e que o agora faz o sempre. Vamos lá andar pr'á frente, subir a montanha de problemas que é a vida, até ao topo que é o final. Vamos lá andar... ao menos! Vamos lá parar com o mal dizer sem apontar o erro e a sua solução. Vamos lá procurar em nós razões para tanto tombo tanta dôr e tanta agrura que se instalou e perdura como praga que corroi, que detrói em nós belos ânimos que podemos adivinhar a pairar num espaço, que mal conhecemos. Vamos lá a entendermo-nos (não... de uma vez por todas que já sabemos que isso... não dá), devagarinho, com a paciência de Jó ou outra qualquer... Vamos lá a acreditar que é possível e que para isso o nosso humilde desempenho é bem mais importante do que possamos ter vindo a pensar. Vamos lá, perante o escrito, o dito e feito... assumir os erros, enxotar as culpas e, fazendo um esforço, confiarmos nos passos dados, acreditando que estamos a aprender a caminhar, uns com os outros, cada vez melhor. Venha de lá essa abundância aberta e sem pretensões, esse altrúismo, essa riqueza de emoções que nos teimam em fugir, essa tolerância que te permita entender a importância de existir gente diferente e que te alimente a vontade de te descobrir em mim e aceitar, que afinal... qualquer de nós, faz parte de um todo em que o que nos separa existe, para sustentar tudo o que nos une.

terça-feira, junho 14, 2005

Convicção

Eu não me enquadro em nenhum partido político. Se alguns acham que é uma posição confortável é porque não me têm estado na pele e sentido o que é, defender hoje quem ataquei ontem, em favor da coerência que me tem levado a recusar usar, um carimbo na testa. Na realidade, o fanatismo chateia-me e, a minha ideologia, passa mais pela tolerância, se bem que se tenha vindo a revelar uma enorme utopia, de difícil mas estimulante, gestão!
Posto isto, não quero deixar passar em branco, a morte de três homens que (cada um à sua maneira) aceitaram o protagonismo, apostados em dominar as suas vaidades, acreditando estar a contribuir para que o mundo seja melhor. Se não o conseguiram, não foi por falta de empenho ou de sacrifício do seus interesses pessoais. À sua maneira tentaram contribuir... e isso, para mim, faz a diferença.

domingo, junho 12, 2005

Abanão

GNR trava onda em Quarteira
Um numeroso grupo oriundo de bairros degradados de Lisboa, lançou ontem o pânico na praia de Quarteira... e só não invadiram o areal, como alguns deles tinham feito na véspera em Carcavelos porque foram travados pelo pelotão ciclista da GNR.
Correio da Manhã do dia 12/06.

O fenómeno em Portugal é novo!...

Todos nós sabemos que, a esmagadora maioria, eram jovens Africanos (o que quer dizer pretos) dos 12 aos 20 anos...

Associações de emigrantes Africanos, manifestando a sua preocupação, pedem encontro com o Ministro da presidência, pedindo a oportunidade para apresentar propostas que visam minimizar estes e outros casos graves em que os jovens africanos nascidos em Portugal, estão envolvidos.
As associações, argumentam que estes problemas não se resolvem apenas com a intervenção policial.

Eu, reteria destas notícias uma frase: Um numeroso grupo, oriundo de bairros degradados de Lisboa...

Entretanto, vou abrir uma excepção e reeditar um post:

Guia prático para a construção de um moderno viveiro de marginais

1º - Escolher um terreno em que ninguém queira viver. Um sítio agreste e por isso barato, nos subúrbios de uma grande cidade.
2º - Construir lá, com pouca despesa, umas torres sem graça. Adicione-se um parque infantil com dois balouços e um bocado de areia. Não esquecer a escola para compor o complexo.
3º - Procurar famílias problemáticas, desintegradas, debilitadas ao nível físico e mental, económico e social, famílias... sem estrutura de recurso, em situações periclitantes que habitem bairros degradados, situados em terrenos com "potencial", cobiçados por construtores pontas de lança de instituições de crédito e bem relacionados com Câmaras Municipais e afins.
4º - Seleccionar os desgraçados por ordem e, em tempo útil, atribuir-lhes uma dessas casas estipulando-lhe uma renda dita simbólica.
5º - Convidar os órgãos de comunicação social para fazerem a cobertura da cerimónia oficial, em que, com pompa e circunstância, os representantes do poder político entregam as chaves aos ditos desgraçados. Promova-se uma entrevista a uma velha desdentada à qual seja ainda possível arrancar um pequeno olhar de esperança e um agradecimento convicto.
6º - Uma vez os desgraçados instalados, manter-lhes todas as premissas que os conduziram à degradação e, em lume brando, esperar que as crianças cresçam.
7º - Adicionar uma pitada de crispação dos habitantes da Vila próxima, em consequência de um ou outro acidente (vulgo roubo) que envolva pequenos grupos desses jovens sem referencias e educação e que se arrogam ao direito de possuir também, telemóveis, ténis ou roupa de marca...inconscientemente esperançados que esses artefactos, lhes permitam "ser como os outros", passar despercebidos e apagar um carimbo que trazem na testa desde que nasceram.
8º - Esperar que a revolta cresça... nos invasores e nos invadidos, nos assaltantes e nos assaltados... até que abra brecha.
9º - Juntar uns filmes de merda frequentes, ao alcançe de todos, decorar com o comércio de armas, drogas lícitas e ilícitas que engorda gente insuspeita que passa a vida a bater com a mão no peito sem dizer "mea culpa" e levar à mesa... regado com muito álcool ao qual é só puxar o fogo.
N.B. - Esta receita, deve ser confeccionada com muito cuidado, para não sair tudo queimado.

Após a reedição deste post, não posso deixar de fazer notar que, a maioria destes jovens de origem Africana, nascidos em Portugal, vivem em bairros de barracas muito mais próximo do "terceiro mundo" do que aquílo que alguns, possam julgar... lugares, em que a degradação, atinge a alma fundo... e dá, o que se vê! É preciso fazer um desenho?! Há ainda muita gente que pretende insistir em acreditar, que isto, tem a ver com a cor da pele?!

quarta-feira, junho 08, 2005

Pobres e mal agradecidos

Naquele castelo distante, a corte andava constantemente, numa azáfama! Aparentemente diligentes, procuravam com afinco, suprir as necessidades que criavam. Acabado um banquete, uma festa, uma orgia, um regabofe... urgia mandar fazer os preparativos para dar continuação à coisa!...
Os bobos da corte, corriam de um lado para o outro entretendo a gentes, abanando guizos e pandeiretas, fazendo piruetas e, largando um ou outro dito que, parecendo às primeiras... inconveniente, acabava por divertir aquela gente que, em vez de se ofender, pelo pouco que lhes ligavam, acabavam, por lhes achar piada.
Festa após festa, banquete após banquete, gargalhada após gargalhada em resultado da piada dita, pelo soberano... a corte, tinha havia muito, encarado a coisa como uma profissão... desgastante!... Quanto mais ria, gozava e se divertia, mais subia... na consideração, mais desenvolvia, a arte de bem lamber botas e de concordar com cara alegre com todas as ideias do soberano, ainda que fossem loucuras e puras idiotices. Em troca, levava esta bela vida que todos podem imaginar!...
Acabado o vinho, os leitões, porcos, vitelos e faisões... acabado o belo pão, a tábua de queijos e o molho de alcaparras... havia, claro, que tomar medidas para repor as iguarias na mesa do rei... e, a corte, estava lá para isso! Os camponeses, também...
...Membros da corte, especializados nesses assuntos de encher dispensas e tornar as mesas fartas, arquitectavam um plano à sombra do soberano (um homem a quem o povo reconhecia legitimidade para nele mandar) e, distribuíam ordens a quem ganhava os despojos por receber e cumprir ordens, sem questionar!
E lá saía uma equipe, para fora de portas, montada em garbosos cavalos negros enfeitados, homens fortes protegidos por pesados escudos, preparados com espada à cinta, para o que desse e viesse.
O plano, arquitectado por bêbados a ressacar e gordos comilões sem cerimónias, era mais ou menos sempre o mesmo: Mandar os mais brutos, às povoações a que chegavam em desvairadas cavalgadas, fazendo-se anunciar, tocando as trombetas! Depois, chamavam a atenção ao povo pelos seus descuidos, calcavam-lhe o égo forte e feio, cascavam-lhe no lombo e logo de seguida, quais pais complacentes que castigam por amor, lembravam-lhes, o quanto se arriscavam para os defender... das invasões, dos raios, dos coriscos e trovões, dos misteriosos perigos que estavam nos livros que só eles tinham e sabiam ler, e de todos os outros perigos desconhecidos, impossíveis de descrever...
...Resultava sempre!... De uma ou de outra maneira, cada aldeão, sentia a culpa a crescer, só de pensar nos sacos de batatas e nos presuntos escondidos, nos litros de feijão que tencionara não dar ao manifesto... e, entendia, que tinha vindo a ser pobre e mal agradecido. E era assim... que redimidos, carregavam eles próprios às costas, até à mesa do rei e da sua nobre corte, os produtos indispensáveis para que esses nobres, valentes e destemidos amigos, os pudessem continuar a proteger de tão temíveis e iminentes perigos...

domingo, junho 05, 2005

Rédea solta

Foi em desnorte e sem sentido
e pelo medo de estar perdido
que entre passos partiu de si
E foi sem querer em desespero
ciente de nada saber
que explodiu se encontrou e deu
Foi desse fora nesse aqui e agora
desse avesso a que chegou
que se entendeu olhou e viu
que era já tarde para qualquer começo
cedo demais para qualquer fim
e que se nada fora ganho
tampouco algo estava perdido
Viver parecia agora ser dar passos
pr’além de lhes buscar o seu sentido

sexta-feira, junho 03, 2005

Continuação 5

Estar de bem com a vida, querer realizar obra, encontrar a vontade para rir, para sentir prazer, em dar prazer, em visitar um amigo ou promover em redor um momento feliz é, justamente, o oposto da infelicidade! Sentir-se são, vigoroso, capaz e solícito é bem o contrário de estar doente, cheio de dores, queixas, ressentimentos e amarguras.

Sem felicidade, na ausência da capacidade para a procurar, mergulhado o ser num mar de agrura e ressentimento que inviabiliza a busca de soluções para os problemas com que se confronta, destorcida a perspectiva pela qual se poderia encarar essa busca e esse problema, como uma oportunidade na vida que nos ajuda a crescer, a progredir e não, como um infortúnio que nos bate á porta para o qual nunca estamos preparados, que nos abate e revolta... sem felicidade, sem a capacidade de lutar por ela a cada passo... dizia eu, é impossível haver saúde e vice-versa.
Se, a saúde implica a ausência de dor ou disfunção, orgânica ou psíquica, a falta da predisposição para a vida, pode ser interpretada como um dos primeiros sintomas de doença, em consequência, de uma qualquer, distonia.
O plano e o momento primordial em que essa distonia tem origem, nem sempre é possível de determinar! Pode acontecer ao nível da mente, no plano psíquico: um equívoco durante o processo de formação do carácter, um distúrbio emocional, uma premissa errada... pode ter um papel decisivo para se desenvolver um tipo de comportamento que cause alguma fricção, algum stress na relação que se tem com o mundo e isto repercutir-se na saúde orgânica do indivíduo. Por outro lado, também uma alteração do equilíbrio orgânico por razões tão fortuitas como, um excesso de poluição ambiental, uma intoxicação alimentar... terá repercussões no estado de espírito, condicionando o comportamento.
Temos por isso, que nem toda a doença tem origem na infelicidade e vice-versa. Existem doenças com origem em agentes externos: a poluição, a degeneração dos produtos alimentares, a educação incompetente e castradora, em que se alicerça o modelo social e económico em que vivemos -fonte de bloqueios, couraças e medos- que, fogem ao control do indivíduo. Contudo, através de complexos e (até ver) misteriosos mecanismos do sistema imunitário, o organismo defende-se e tudo leva a crer, que há uma maior resistência/competência desse sistema, numa pessoa que (disposta a rebuscar nas profundezas a força para esboçar um sorriso), persista na busca de caminhos para a felicidade... do que, numa outra que, sentindo-se traída pela sorte, assuma a tristeza como a consequência natural do estado a que o “destino” a votou e, viva, deprimida, revoltada, sempre dependente de ajuda, maldizendo e renegando a própria sorte. Ao contrário, pensarmos nos outros, tornarmo-nos disponíveis para ajudar alguém, pode servir-nos como acto profilático ou mesmo terapêutico, dar-nos mais força e resistência, fazendo-nos sentir úteis e por isso, dignos de amor, tão importante para a nossa realização e bem estar, integridade e saúde; física, mental e emocional e, se quiser-mos, espiritual!
No fundo o “truque”, parece girar á volta do dar e receber, do investir o melhor de nós, com a humildade suficiente que nos permita, reconhecer e corrigir erros, rumo a um ser cada vez menos imperfeito.
Trata-se, de ter um objectivo sempre á mão que passe por nos tornar-mos úteis a cada passo, mais que não seja... ajudando “a velhinha” a atravessar a rua!

sábado, maio 28, 2005

A inocência do accionista

O accionista recebeu uma pista! ...A coisa estava quente lá para o médio oriente. Poderia até estalar uma guerra! Espreitou por um lado, espreitou pelo outro... ponderou rapidamente e vendeu umas acções que tinha aplicadas em energias renováveis, para realizar capital e comprar umas outras de uma empresa, que fabricava mísseis de médio alcance muito eficazes.
Tarimbado neste jogo, comprou também, acções de uma empresa que fabricava anti mísseis e, prevendo a subida do preço do petróleo, comprou ainda umas outras, de uma empresa petrolífera, de um outro lado do mundo.
O accionista, recebeu uma pista e, na mira de lucro, pôs o seu capital ao serviço da guerra!
Depois, sentado na sua cadeira ergonómica, bebia notícias e, perante recuos e avanços, deixou-se tomar por uma estranha volúpia, um desejo abstracto (ou seria concreto...), para que desatasse tudo à porrada! ...Essa é que é essa!...

terça-feira, maio 24, 2005

Continuação 4

Temos doentes, gente diferente, deficientes, debilitados, degenerados... mas, podemos dormir descansados... O sistema oferece serviços, técnicos devidamente credenciados para lhes tratarem da saúde... Tem uma filha com deficiências mentais, uma mãe com Alzheimer, um filho drogado, uma esposa em desnorte que lhe causa embaraços, que lhe consome o seu precioso tempo e o confronta, com a necessidade de mudanças para as quais está indisponível ou se sente impotente?... Não perca mais tempo... não mude, nem questione nada. Confie, apoie-se no sistema e liberte-se do fardo entregando-o a uma casa de saúde, uma clínica especializada, uma instituição de saúde mental que não queima ninguém na fogueira e já nem electrochoques aplica. Durma descansado, mantenha-se na corrida para o êxito, em troca de uma (mais, ou menos), modesta mensalidade!...
Na sequência dos esforços sérios que o Homem tem feito para erradicar a doença e o sofrimento, faz todo o sentido, apurar o conceito de saúde e, por outro lado, ao invés de sonegar conhecimentos (através de um esoterismo conveniente a quem é pressuposto tê-los), torná-los cada vez mais acessíveis a quem deles quiser fazer uso, estimular aqueles que, por comodismo ou por qualquer outra razão, o não querem fazer e, procurar envolver os doentes na sua própria cura, sugerindo-lhe a necessidade, de identificar a origem da doença e de, transformar as condições que conduzem a ela, através da mudança necessária, da terapia adequada... seja ela fitoterápica, homeopática, quimioterápica, cirúrgica, espiritual... enfim, o que se encontrar mais adequado!
Não é minha intenção, através destas criticas, atacar ou desvalorizar, serviços e profissionais ou o desenvolvimento técnico e científico nesta área, é sim, contribuir para que cada um de nós, nos tornemos cada vez mais, responsáveis e interessados pela nossa própria saúde, esperançado que, a sociedade mude em consequência. Estimular a vontade de nos conhecer-mos melhor, de modo a que aprendamos a conservar-nos sãos, desde logo lutando pelas condições básicas de vida, sem as quais a saúde se torna impossível.
Antes do mal estar, da dor, da doença instalada, poderemos interpretar sinais que, ainda que vagos, nos alertam para a necessidade de alterações que, poderão interromper o desenvolvimento da doença, inverter o processo e evitar assim, cuidados médicos posteriores.
Muitos desses sinais escapam-se-nos, não são interpretados como tal e daí este modesto contributo, que espero, não tenha contra-indicações!

sexta-feira, maio 20, 2005

Continuação 3

Hoje, muito mudou! Graças aos pensadores livres, alguns medos deixaram de ter sustento, muitos tabus caíram e, ainda que outros se levantem e novos medos possam ser arquitectados por pretensiosos e ressentidos “senhores do saber”, alguma luz, tem chegado às trevas! A ignorância essencial, essa, que não permite “ver com o coração” e veda o conhecimento do fundamental, sempre camuflada, apresenta-se com novas roupagens mas, mantêm as máscaras de sempre; a da diligência, da responsabilidade, do sentido do dever, da consciência transcendente... da humildade dos sábios e, sem pejo, dá a entender saber coisas, com que nem sequer sonha! Questionada pelos mais afoitos, afirma não poder explicar o que ninguém iria compreender e, sobrevive assim, em todo o lado, com o conforto relativo que em geral é concedido, a quem, insinuando esconder por modéstia um misterioso saber que não pode ser explicado, deixa no ar a ideia de ter o poder de salvar, qualquer desgraçado...
Perante, aparentes e reais necessidades de promover, manter ou recuperar a saúde, muitas instituições, chamaram a si essa responsabilidade e, se bem que em muitos casos a sua utilidade seja inquestionável, noutros, não é assim! Os esforços para promover e manter a saúde, são débeis, e, muitos dos doentes que poderiam ser curados não o são, uma vez que se insiste em (apenas) anular sintomas, sem reflectir na origem/causa, das doenças...
Mantêm-se o estado das coisas... debela-se a febre e mantêm-se a carraça na prega da orelha!

terça-feira, maio 17, 2005

Continuação 2

...Perante uma crise convulsiva de um epiléptico, as consequências da ignorância, foram brutais e dramáticas. Os doutos sábios, recusando-se a confessar as suas limitações, incapazes da verdadeira compaixão e, confrontados com a necessidade de sossegar os espíritos perturbados por medos irracionais, que emergiam soltos de um misterioso imaginário... no mínimo, participaram na construção de soluções dantescas que, ao que parece, só o homem é capaz! Perante esse desassossego da família e da comunidade em geral, a impotência de magos e sábios, de líderes políticos e religiosos, muitos doentes foram torturados, mortos queimados em fogueiras santas, com a responsabilidade de autoridades instituídas e, enfim... de uma boa parte da comunidade que, refugiada na ignorância, queria acreditar ser essa a forma, de libertar o infeliz, de espíritos demoníacos, “purificando-lhe” a alma, para o resto da eternidade... Muitos desses rituais de carácter místico religioso e com alguma pretensão científica, forneciam à comunidade espectáculos públicos, que lhe permitia respirar de alívio... liberta, de tamanho incómodo!...
Dando largas à imaginação, conseguiam vislumbrar nos corpos contorcidos pelo horror, expressões e urros do Demónio, assim afastado por algum tempo.
Enquanto isso, alguns espíritos livres, abafavam no peito a revolta pela barbárie e, receosos de se verem envolvidos, relacionados ou acusados de artes de feitiçaria, ou de pactos com o demónio, viam-se obrigados a assistir impávidos aos crimes, que desde sempre, a ignorância tem permitido justificar!

segunda-feira, maio 16, 2005

Continuação 1

O mal estar, o estado agudo ou crónico de infelicidade e no geral todas as alterações de ordem mental, têm sido dificilmente enquadradas e aceites, como um problema de saúde. Não esqueça-mos, os muitos epilépticos ou esquizofrénicos que foram sacrificados pela ignorância, hipocrisia ou impotência, relegados para um papel de personagens a destruir ou esconder, entendidos como aliados do diabo ou instrumentos usados por forças ocultas com intuitos demoníacos.
Essas pessoas, num passado bem recente, não eram consideradas como doentes. Não tinham direito a esse estatuto. Acabavam, na prática, por representarem inimigos a abater, ou no mínimo, a esconder, pela afronta á sabedoria e pelo incómodo geral que causavam, quer por perguntas ou afirmações estranhas, como por comportamentos bizarros, para os quais a ciência e a lógica, não tinham resposta ou explicação. Ora, como é hábito nestas situações, em vez de nos confrontarmos com a ignorância e impotência, temos uma tendência natural para olhar á volta, em busca de um culpado. No caso dos esquizofrénicos ou dos epilépticos, atribuía-se a culpa, de uma forma abstracta, ao demónio, ou a algum espírito maligno, que possuía o desgraçado e que, agindo através dele, perturbava a ordem e a paz, estabelecendo dúvidas onde deviam reinar certezas. Muitas vezes eram encontrados responsáveis para estas situações perturbadoras; bruxas, magos, seres das trevas, servos do Diabo... gente, com o poder de endemoinhar uma pessoa, personagens, pertencentes ao imaginário do colectivo e, relatos de crânios furados para que o espírito perturbador se pudesse escapar, chegam-nos do Egipto de há três mil anos atrás!

sexta-feira, maio 13, 2005

Sobre a doença e a saúde

É um comum ouvir-se dizer, que a saúde é um bem essencial. Não é suposto, que alguém deseje ficar doente! Ninguém assume gostar de estar doente. A doença condiciona e é desagradável! Não parece por isso fazer sentido, alguém desejar ficar doente. Ao contrário, todo o doente, nesta linha de raciocínio, deseja curar-se. Porém, as coisas da saúde e da doença, não são realmente assim tão lineares e a verdade, é que em determinadas situações de desequilíbrio, muitos “optam”, a um nível mais ou menos inconsciente, pela doença! Pelos mais variados motivos!
Uma série de perturbações que têm vindo a ser designadas como doenças psicossomáticas, estão, a maior parte das vezes, relacionadas com a incapacidade para lidar com situações que seria pressuposto serem resolvidas e ultrapassadas, sem que o indivíduo entrasse em distonia. Contudo, é já clássica a expressão: gastrite ou colite, nervosa!... Por outro lado, é bem conhecida a relação entre o desgosto ou a tristeza e a propensão para a doença. Constata-se ainda, a facilidade com que algumas pessoas ficam doentes quando os “outros” as contrariam e a vida não lhes corre de feição, raiando a chantagem e a manipulação desses “outros”, através do seu estado de saúde!
Convêm entretanto não esquecer, que o conceito de saúde e de doença, fez com que na generalidade, se associe a doença á dor física e não se levem em consideração, muitos sintomas mais silenciosos e subtis, que poderiam servir-nos de alerta para estágios iniciais de doenças mais ou menos graves!

sexta-feira, abril 29, 2005

Paradoxo

Existe, à velocidade do pensamento, sem ter que sair do centro ou que carregar com o peso da existência. Liberto. ...De amarras do tempo e do espaço, de crenças medos e ilusões, do bem e do mal! ...Um ser livre, de energia pura. ...Daquela que pulsa e existe em todos os lugares.
É, todas as coisas e nadas, pedaços de si, creador de sonhos sementes de onde brotam realidades, espaços e tempos em que se expande e recreia. E, quando nessa senda se sente disperso... demasiado longe de si mesmo, concentra-se em matéria que de tão densa o leva a duvidar da existência! ...Daí se expande, em direcção a todos os lugares! Uma vez mais e sempre.
Existe, qual paradoxo, inventado por si próprio...

sexta-feira, abril 22, 2005

terça-feira, abril 19, 2005

Um momento de tréguas

Fogo na peça!... Gritava empolgado o cabo raso ao soldado, cumprindo ordens de um sargento ajudante que se mantinha distante e resguardado, não fosse o diabo tecê-las...
Naquela guerra, tudo era como em qualquer outra!... Todos queriam matar para não serem mortos... um clima de medo alimentava um ódio cego - fornecido na partida - com destino vago... um ou outro candidato a herói, sonhava com uma medalha, os militares de carreira preparavam a promoção e, na realidade, ninguém sabia, como se tornara possível aquele desamor que grassava campo fora; batalha após batalha, cada uma mais sangrenta que a anterior!
Falava-se, nas trincheiras nauseabundas, que no topo do comando havia um general, que por táctica obedecia a um civil bem colocado, membro de um clube a cheirar a rosas com interesses secretos em que as coisas fossem estando nesse estado. ...Mas isso, nunca foi autorizado a ser provado em tempo útil e, alguns dos que o diziam chegaram a ser condenados por difamação a indivíduo indeterminado...
O soldado - que acendia o rastilho, dava fogo à peça e disparava a bala, que alombava com a carga e cavava as trincheiras -, evitava o que podia, ver-se a braços com a alma suja! ...Cada vez que tropeçava num corpo abandonado a que tinha tirado a vida, escolhia acreditar, ter cumprido o seu dever, levando a cabo a missão que lhe fora destinada. ...Sem saber ao que andava ou o porquê do que fazia... não sabia, nem queria saber... mais nada!...
Finda a guerra, a euforia do saque - na paz que entremeia cada tumulto -, lambiam-se as feridas, vinham à baila os traumas e, em noites mal dormidas, havia quem sentisse a consciência pesada... mas já não valia de nada... uma guerra estava feita e outra... ao lume, fervilhava. Um lume... alimentado, por um civil bem colocado que garantia ser aquela a via para chegar à paz!
...Mas nunca nada foi autorizado a ser provado em tempo útil. Não se lhe sabia o nome e a morada e, o soldado, não sabia nem queria saber mais nada. ...Já bem lhe bastava expiar culpas e reenvindicar os direitos de antigo combatente.

sábado, abril 09, 2005

Contacto

Através de vidros foscos, olhavam-se desde sempre e, por vezes, chegavam a sentir-se cúmplices. Nenhum sabia quem o outro era, e qualquer deles, estava muito longe de se entender como parte de um ser uno. Alguns, tinham vislumbres em que queriam acreditar... mas as coisas eram vagas, e ao que uns chamavam de percepções, os outros garantiam não passarem de fantasias que alimentavam ilusões!
...Por vezes... um, esboçava um aceno, sem qualquer certeza de que alguém o recebesse. E, se por acaso ou necessidade um outro o percebesse... calhando (com mais ou menos fé), respondia. Sempre sem garantia de manter o que quer que fosse.
Mais que uma vez, viveram momentos suspensos que lhes pareceram de ternura e sintonia. Alguns, sentiram o coração arrebatado por uma estranha sensação fugaz, cujo sentido se perdia entre sombras projectadas em terreno desconhecido.
Em busca de contacto... palmas das mãos coladas ao vidro... a ponta do indicador... era o bastante para que a imaginação parisse brotos promissores de onde poderiam despontar futuros. E isso era o bastante para que se sentissem vivos e pertencentes a algo para além do concreto.
Outras vezes, sem que ninguém soubesse bem o como ou o porquê, viam nos seus próprios reflexos inimigos com que chegavam a lutar até à morte, movidos por paixões, convicções cegas e jogos de poder, em que ficavam todos a perder.
Quando assim era, qualquer palavra era a palavra errada e um qualquer motivo poderia servir de pretexto para inverter o sentido ao texto. Corriam em desnorte! Sacudiam do capote as culpas entranhadas nos ossos durante tempos sem fim de ilusão e reflexão baça e, em busca de um culpado creavam destruição, estilhaçavam os vidros e davam de caras consigo próprios!

sexta-feira, abril 01, 2005

O ilusionista

Foi com o sacrifício de várias gerações, que aquela moradia tinha vindo a ser mantida propriedade da família e, embora estivesse de certa forma degradada, continuava a ser, um motivo de orgulho para a maioria.
A história do antepassado destemido que a mandara construir, passava de pais para filhos e, à medida que ia sendo contada, adquiria novos contornos. Um ou outro acontecimento podia desaparecer ou nascer, consoante a imaginação de cada um, a geração e o jeito que esse retoque poderia dar no momento.
A casa, com a frente virada ao mar, implantada em terreno fértil, tinha nas traseiras hortas e pomares que confinavam com bosques e matas espalhadas por montes e serranias que, adquiriam tonalidades quase mágicas. ...Um sítio, em que qualquer um poderia viver feliz, não fora a volúvel tonteria de querer ter a garantia, de poder chegar, justamente ao lugar em que não se está, de vir a ter o que não se tem e, por aí além...
Um dia, chegou-lhes ao lugar, um artista... um verdadeiro ilusionista, com uma mala cheia de truques e magias a que ninguém resistiu...
Começou por lhes falar do saldo contabilistico e do saldo disponível...
Explicou-lhe o que era um número negatívo... uma conta a descoberto e as suas respectivas alcavalas, um cheque, uma comissão de atraso, um imposto do selo, uns juros sobre o empréstimo, uma compra com o dinheiro que se presume poder vir a ganhar...
Falou-lhes de conceitos e pôs-lhes notas na mão em troca de espaço no lugar. ...Na prática, comprou uma concessão, para explorar potencialidades com que nunca tinham sonhado! Montou uma banca, atirou um foguete ao ar e deu-lhes a provar salmão de tanques longuínquos, doce de morango com sabor a banana, água com várias cores e sabores, frutas lustrosas e sem bicho, ensinou-lhes regras novas para jogar à cabra cega, ao toca e foge... e, instalou nas traseiras - lá no lugar -, uma fábrica de fazer dinheiro em que pôs todos a trabalhar!
Pagava-lhes com notas e, em troca destas, tanto lhes vendia botas que se usavam em Paris, como o salmão que lhes tinha dado a provar ou, relógios da China que davam música... e, em momentos de maior amargura, adoçava-lhes a boca com doces de uma fruta que sabia a outra!...
Ensinou-lhes o que era o PIB, deu-lhes um cartão e atribuiu a cada um um NIB, promoveu os mais velhos e influentes a VIP, explicou a todos as virtudes do caviar fazendo-lhes crescer água na boca e, quando lho quiseram comprar, concedeu empréstimos celebrados em papel timbrado, contra hipotecas de parcelas da propriedade...
Entretanto, cada vez menos gente amanhava a terra! Chegavam a casa, cansados de dar à manivela na máquina de fazer notas e, por outro lado, em função dos preços a que o ilusionista lhes vendia os produtos que arranjava noutros lugares, tinha deixado de ser rentável fazer o que quer que fosse, para além de trabalhar nesta nova actividade tão lucrativa... De qualquer modo, os terrenos, cada vez mais sobrecarregados de detritos, produtos tóxicos, restos de tintas usadas na feituras das notas... tornaram-se estéreis e, à medida que a fábrica se expandia, o espaço que restava mal dava, para plantar uma couve que fosse!
Uma tarde de pescaria começou a revelar-se impossível, por falta de tempo - que era todo tomado a trabalhar, para pagar juros, comissões e prestações da hipoteca - e, na verdade, ao preço que o salmão lhes chegava à mão, compensava muito mais comprarem-no ao ilusionista, do que pescarem robalos no mar e apresentá-los no prato grelhados... particularmente aos miúdos, que só de os verem ficavam enjoados e infelizes, depois de terem ouvido o ilusionista falar, nas delícias do mar, sem espinhas, feitas de farinhas nutritivas com sabor a lagosta suada e com forma de monstros divertidos.
O simples e antigo ritual de apanhar frutos do bosque, caiu em desuso, perante a oferta das suas polpas finas, açucaradas, vendidas em embalagens atractivas coloridas, com as quais se desenrolavam vários sorteios.
Um dia... o ilusionista, que na prática se tornara em quem mandava, por ter ficado na posse do terreno a ele hipotecado, importou uma máquina de fazer notas semi-automática e, mandou para casa metade dos trabalhadores que se viram forçados a pedir dinheiro emprestado para pagar as dívidas que tinham criado enquanto tinham trabalhado a dar à manivela, mas, como já não estavam inscritos, viram os seus pedidos recusados e os seus cartões outrora dourados foram por magia transformados em pó!... Ficaram sem NIB, deixaram de ser VIP e nunca mais puderam comprar salmão vindo de tanques distantes, ou sumo de laranja a saber a framboesa...
A família, começou a olhá-los de lado, porque a bem dizer... desempregados e mal habituados, eram um fardo! Eles, viram-se forçados a entrar num programa de reciclagem instituído pelo artista, em que aprendiam a não existir e no qual foram bem sucedidos!
Em menos de nada, graças aos avanços tecnológicos, a máquina semi-automática foi substituída por uma outra, totalmente automática e todos os membros daquela família, ingressaram nesse programa de reciclagem, com excelente aproveitamento!
Hoje, embora o lugar esteja muito degradado, tóxico e viscoso, a produção de notas duplicou e a economia do lugar é das mais fortes do mundo! Quanto à antiga família, se bem que se saiba que andam por ali, não são vistos, nem tidos... nem achados...
Quanto ao resto, tudo está entregue a uma máquina, altamente sofisticada que faz notas como que por artes mágicas e, o ilusionista, continua a coleccionar propriedades e, a emprestar as notas a quem se apanha a desejar, comprar-lhe as botas que ele vende e que se usam em Paris.

quinta-feira, março 24, 2005

A invenção da garantia

Não se pode dizer, que tudo tenha acontecido de repente...
Quando, uma parte da maioria sucumbiu esmagada pelo peso da estrutura dos andares de cima - num acidente não coberto pelo seguro por via de uma alínea escrita em letra pequenina -, havia muito que alguns diziam ter ouvido o ranger das traves mestras e apontavam falhas; quer na estrutura, quer no terreno em que esta, tinha vindo a ser edificada. Diziam até, que a estrutura cheirava a podre e que a melhor solução seria, deitá-la definitivamente abaixo e construir uma outra de raiz, mais sólida e equilibrada.
A maioria, entretida na azáfama da manutenção da estrutura, não pensava assim, nem de outra maneira qualquer, evitando pôr de vez em causa o chão que pisava e aquilo que julgava ter adquirido!... Preferia, acreditar numa mão fechada cheia de um nada bafiento e num futuro que, de tão distante... lhe parecia brilhante! ...Diligente, insistia em sentir-se senhora de um hipotético império penhorado, desvalorizando o assunto... escolhendo entrementes assobiar distraída, melodias fáceis de entrar no ouvido, emitidas a toda a hora em programas de entretenimento.
Lá no topo, os vendedores de sonhos dourados e de negros pesadelos, loucos que se julgavam donos do mundo... não paravam de sobrecarregar a estrutura, atafulhando os andares de cima com baús cheios de tesouros pesados trocados por bugigangas. Continuavam, a encher estantes com títulos de registos de propriedades, inventados à pressão para legitimar terrenos saqueados. Passavam a vida, a anotar combinações secretas para os cofres que enchiam de diamantes feitos riquezas, e a mandar cunhar moedas segundo a velha receita - que detinham em segredo -, da feitura das fortunas... e, nunca se cansavam de afirmar, que tudo estava no seu lugar!
Por último, perante sérias evidências, chegaram a admitir que o edifício, até podia oscilar... estava, aliás, concebido para oscilar! ...Justamente para não ruir!...
A cada coice de culatra, a cada omoplata partida, a cada sonho desfeito feito drama, a cada tiro no pé, a cada Zé enterrado vivo "por engano"... lá vinham os argumentos da sorte e do azar, da conjectura internacional, da subida ou da descida dos factores determinantes, da baixa produção dos produtores... e, a malta... claro, nem pensava uma segunda vez e chegava até, a não pensar de todo! Trocava o que pensava ter, pela patranha e, uma após outra vez, mantinha - fazendo das tripas coração -, os pilares podres no ar, com o medo que a estrutura lhes caísse em cima e deitassem a perder, tudo aquilo que embora não tivessem - a ser como lhes garantiam -, talvez um dia... viessem a poder... vir a ter!...
Quem sabe... talvez um dia, pudessem também cagar diamantes!...
Alimentada por ilusões, mantida obediente, qual rebanho por medo de lobos maus, temerosa dos castigos eternos... por pecados inventados em sonhos e em noites escuras pintadas por loucos e ditadores, essa ingénua, essa estúpida e dócil de calculista, essa perversa de moralista... essa maioria, tão cruel quanto submissa... aceitava resignada "o seu destino", composto de licenças e multas, de cajadadas que agachada levava no lombo pregadas por pulso forte com frieza! Tudo... na expectativa de manter, a sempre vaga garantia (que se aproximava mais de uma promessa que tornava possível a esperança...), não da vida... mas da segurança! E essa, era dada, ou melhor... vendida, pelos vendedores de sonhos dourados e de negros pesadelos!
...Por dez réis de mel coado, pago, por cada dia que vivia, a uma companhia de seguros instalada num andar de cima, a maioria, que em caso de morte poderia ter a vida paga... assim andava, sem saber porquê, muito mais descansada!
...De pouco valia, àqueles outros (que eram só alguns), tentarem convencer a maioria, a abandonar a estrutura edificada, a serem donos da sua própria vida e guardarem o mel coado e as batatas para darem aos filhos, aos amigos, ou para trocarem com os vizinhos... é que aqueles outros, procurando preservar um mínimo de decência, insistindo na coerência, não lhe davam garantias... e isso, para a maioria, era inconcebível.

sexta-feira, março 11, 2005

Uma viagem de coragem cega

Revoltado o mar como estava durante aquela maré viva, abalava-te as convicções e reforçava-te os medos!
Quiseras... em aflição - dando a quilha à vaga e desfraldando a vela -, esperar dos teus pares as asas da fragata, a coragem e a cumplicidade... mas, a força com que o mar te abalroava, a água salgada que em vendaval te entrava pelo frágil bote adentro e te mirrava os ossos, uivou-te à alma - uma após outra vez - que estás só!
...Teimoso, não ligaste. Não quizes-te acreditar. ...Para o caso tanto se te dava!... Destemido, rumaste a um destino, por rotas que não vêm no mapa. Intrépido, à medida que avançavas vaga acima e te vias a mergulhar na cava que ameaçava destroçar-te, deste por ti abandonado. ...Justamente por gente que por medo abandona o barco e se faz náufrago agarrado a frágeis tábuas, ramos, troncos ou lixo, coisas diversas que por norma se mantêm à tona, enquanto eras assaltado por piratas e apontado como louco, por homens que se diziam de boa fé e que passavam ao largo da tempestade...
Salvo que foras um dia por ti mesmo (aquele outro que de si ninguém conhece)... conheceste-te a acreditar, que o que fosse se veria e, perante a brutalidade daquele mar que ameaçava destroçar-te, conduzir-te em vertigem por abismos escuros com que nem os mais fortes e rijos, os mais maus e duros, os mais corajosos em mar chão... se atrevem a sonhar... tu, avanças-te, agarrado ao leme, do cada vez mais frágil barco, de onde tantos tinham saltado descrentes na chegada ao bom porto que acreditaram desejar.
Sabias (e não te vou perguntar como)... que há mais mar que marinheiros, que depois da tempestade vem a bonança, que enquanto há vida há esperança, que quem almeja sempre alcança e que, a calmaria... apenas serve para retemperar forças. De contrário, seria o marasmo... e a vida, não seria esta utopia neste mar salgado, ora calmo, ora eriçado, que revolve e agita, que mata e cria, para que tudo continue sempre, como até aqui nunca tinha sido!
Sabias... mas duvidavas! Fustigado por ventos de poderosas rajadas, desgastado que estavas das estaladas e dos golpes brutos vaga afora até à crista... dos golpes baixos mar cavado frio e denso adentro...
Querias manter-te à tona... e quando um dia em bolandas, em plena tempestade descobriste que podias fazer disso o porto de chegada... a razão da tua vida... ela, pregou-te a partida e lançou-te para a tonta calmaria de uma estúpida enseada! E foi aí, que, dando conta das feridas, te encontraste esgotado a congeminar novas aventuras.

domingo, março 06, 2005

Uma visão

Extraordinariamente, vi-te partir na chegada!...
...Vinhas em crise, na recta da meta, esgotada da corrida, saturada do medo de não chegar ao fim! O corpo... todo dorido, ameaçava-te a cada passada deixar de obedecer à tua vontade, rendido ao cansaço, pronto a abandonar-te, a deixar-te sozinha na derrota, no caminho...
Olhei-te nos olhos, auscultei-te a expressão que trazias na face e no corpo, e durante momentos que pareceram sem fim... não te reconheci, de deformada que estavas! Espelhavas desanimo, esvaias-te em suor e, ofegante, incapaz de articular palavras... era assim que te queixavas. Esgotado o fôlego, não te ocorria nem conseguirias dizer nada, cansada que estavas dos estratagemas, de quem te punha a correr para apostar no teu adversário, e em redor, um turbilhão avalassador alimentava a tua dor. Um burburinho crescente de vozes e vaias, que fazia de ti uma gazela nervosa em fuga para a meta, consumia-te as últimas calorias. O vassalo impotente... mais uma vez crescia em ti, o galgo e a lebre fundiam-se-te na alma e corrias desesperada, em risco de te rebentarem os bofes, para gáudio de uma multidão que assistia distraída, segura do desfecho, trocando impressões sobre iates, corridas de cavalos de sangue puro, luvas para golfe de pele de pinguim, pitarocas de meninas de dez anos e falos cor de rosa... e tu, concentrada na corrida, avançavas em pedaços que abandonavas dispersos por onde passavas, sempre e cada vez mais em câmara lenta, com o burburinho destorcido pela lentidão, que te ecoava na cabeça, até que... já próximo da meta, no final daquela recta, na iminência do desfalecimento, da queda... deste conta dos sentidos inundados, pelo jorrar do champanhe que escorria nas bancadas delirantes com a vitória que a tua derrota coroara, pelas gargalhadas debochadas numa festa em que tu, eras o bombo! Sentiste-te atingido na alma, pelas graínhas dos bagos de uva a serem cuspidas para a arena, enquanto num olhar de relance sem dó, te vaiavam o lugar...
Não se sabe bem a razão! ...Nem todos respondem da mesma maneira! Mas tu... invadidos os músculos por uma subtância que eu julgo composta por revolta e indignação, cortas-te a meta no teu lugar... e partiste... sem parar, como uma seta, cheia de força, agora sem um queixume... rumo a nenhum lugar!
...Nunca ninguém mais te viu, a engrossar a bancada correndo com a força do crédito, oferecido na partida e retirado na recta da meta, já bem próximo da chegada...

sexta-feira, março 04, 2005

Acossado

Fugia de si próprio por veredas pantanosas, lançava-se em corrida desesperada ao longo de túneis escuros de que não lhes via o fim e, chegava até a sentir-se culpado, por essa fuga em demanda de paz, que havia iniciado desde que se lembrava de ser gente.
Quisera deambular livre, simplesmente. Extasiar-se com a beleza de prados floridos, embrenhar-se em bosques frondosos colhendo frutos e raízes silvestres, com que alimentar o corpo e regalar a alma. Quisera, comungar com a natureza, banhar-se e beber a água em ribeiros cristalinos, encher o íntimo com lampejos de felicidade ouvindo pássaros cantando, sentindo no âmago a vida que pulula e os odores inebriantes que, imaginava, inundariam essas paragens. ...Quisera, por um momento, encontrar-se a sós consigo, guardar no peito raios de luz que dançariam por entre a folhagem e à noite, vencer medos antigos das sombras, num banho de luar contemplando rendido e sereno, o céu estrelado.
Mas a vida, nunca lhe permitira sair do asfalto e os carreirinhos que pisava e não conhecia, os atalhos por onde em desespero se metia, iam todos dar ao ponto de partida!... Um sítio demasiado iluminado, que nunca lhe permitia ver sequer, a lua!
Perturbado... porque para com as obrigações que lhe criavam ele era faltoso, sentia ruir a estrutura e adivinhava-se apontado em cada esquina que dobrava, como um doido de cabeça estouvada em quem não se confia. Chegou até a sentir-se... o porquê dos males existentes e de outros que estarão para vir... e, era por isso, talvez até... só por isso, que almejava fugir. ...Não sabia como, nem para onde. ...Quando nasceu, todos os pedaços de terra tinham sido conquistadas e já tinham dono!
Pregavam-lhe multas, cobravam-lhe por tudo e por nada; o preço de um selo inventado, de um carimbo... uma comissão... e até pela dor que sentia no peito, pelo desgosto... lhe cobravam um imposto!
Mandavam-no ganhar o dinheiro para pagar... e ele, consumia para pagar, produzia para ganhar, ganhava sempre a perder, a toda a hora, em qualquer lugar, de qualquer maneira. Depois... claro, era multado!... Por ir apressado, por chegar atrasado, por não ter conseguido dar mais do que tinha!...
...Fugia de si próprio, envergonhado. Fugia parado. Obrigado a pagar para produzir, a comprar licenças para vender e a cobrar um imposto a quem lhe queria comprar, para depois entregar a quem no fundo geria a sua vida! Pagava para vender, vendia para pagar, pagava para não ser multado e quando o era, por não ter sido capaz de ganhar o suficiente... via a dívida agravada e chegou a ter que pagar com o corpo. Até que um dia... em agonia, sentiu-se forçado a vender fracções da alma ao diabo!... É que esse... pagava bem, e ele... estava cheio de dívidas.

terça-feira, março 01, 2005

A óptica da anti vida

Vem esta a propósito, do uso excessivo de antibióticos. Desta vez, foi uma associação qualquer de farmácias que referiu o facto. Eu, não pude deixar de achar estranho. É que, das duas uma, ou há ainda, uma terceira: Os médicos, estão a receitar antibióticos a mais, as farmácias estão a vender antibióticos sem receita médica ou, ambas as situações se verificam. Em qualquer delas, mais uma vez, quem se lixa é o mexilhão. ...Aquele animal que continua a ser visto como uma peça substituível a qualquer momento e que tem que andar até cair!
Longe vão os tempos em que as gripes eram tratadas com resguardo, cházinhos e canja de galinha! Hoje, a impiedosa máquina montada, exige peças novas ao mínimo sinal de fraqueza! Estar doente, ainda que com gripe, é visto como um sinal de debilidade que ninguém se pode dar ao luxo de deixar transparecer. Por isso, com a ajuda de médicos, cada vez mais eles próprios, peças com a função de manter as máquinas produtoras falantes em pé sem queixumes, recorre-se a patéticas medidas drásticas! E, na fuga para a frente, deste sistema anedótico, vão-se promovendo outras doenças, debilitando o sistema imunitário, sobrecarregando o sistema hepático, irritando o sistema gástrico, promovendo colites, estimulando tosses "secas"... tudo, por sua vez, dominado por mais e mais medicamentos...
Será que a industria farmacêutica tem o poder de pressionar os agentes envolvidos e é dessa forma que, comparando com outros países da Europa, vende mais em Portugal, ou, estamos perante a incompetência, a ignorancia, ou a pura insensibilidade?
Portugal, é o país da Europa que consome por habitante mais antibiótico (e, de largo espectro, à semelhança de outros países do chamado terceiro mundo)!