quinta-feira, março 24, 2005

A invenção da garantia

Não se pode dizer, que tudo tenha acontecido de repente...
Quando, uma parte da maioria sucumbiu esmagada pelo peso da estrutura dos andares de cima - num acidente não coberto pelo seguro por via de uma alínea escrita em letra pequenina -, havia muito que alguns diziam ter ouvido o ranger das traves mestras e apontavam falhas; quer na estrutura, quer no terreno em que esta, tinha vindo a ser edificada. Diziam até, que a estrutura cheirava a podre e que a melhor solução seria, deitá-la definitivamente abaixo e construir uma outra de raiz, mais sólida e equilibrada.
A maioria, entretida na azáfama da manutenção da estrutura, não pensava assim, nem de outra maneira qualquer, evitando pôr de vez em causa o chão que pisava e aquilo que julgava ter adquirido!... Preferia, acreditar numa mão fechada cheia de um nada bafiento e num futuro que, de tão distante... lhe parecia brilhante! ...Diligente, insistia em sentir-se senhora de um hipotético império penhorado, desvalorizando o assunto... escolhendo entrementes assobiar distraída, melodias fáceis de entrar no ouvido, emitidas a toda a hora em programas de entretenimento.
Lá no topo, os vendedores de sonhos dourados e de negros pesadelos, loucos que se julgavam donos do mundo... não paravam de sobrecarregar a estrutura, atafulhando os andares de cima com baús cheios de tesouros pesados trocados por bugigangas. Continuavam, a encher estantes com títulos de registos de propriedades, inventados à pressão para legitimar terrenos saqueados. Passavam a vida, a anotar combinações secretas para os cofres que enchiam de diamantes feitos riquezas, e a mandar cunhar moedas segundo a velha receita - que detinham em segredo -, da feitura das fortunas... e, nunca se cansavam de afirmar, que tudo estava no seu lugar!
Por último, perante sérias evidências, chegaram a admitir que o edifício, até podia oscilar... estava, aliás, concebido para oscilar! ...Justamente para não ruir!...
A cada coice de culatra, a cada omoplata partida, a cada sonho desfeito feito drama, a cada tiro no pé, a cada Zé enterrado vivo "por engano"... lá vinham os argumentos da sorte e do azar, da conjectura internacional, da subida ou da descida dos factores determinantes, da baixa produção dos produtores... e, a malta... claro, nem pensava uma segunda vez e chegava até, a não pensar de todo! Trocava o que pensava ter, pela patranha e, uma após outra vez, mantinha - fazendo das tripas coração -, os pilares podres no ar, com o medo que a estrutura lhes caísse em cima e deitassem a perder, tudo aquilo que embora não tivessem - a ser como lhes garantiam -, talvez um dia... viessem a poder... vir a ter!...
Quem sabe... talvez um dia, pudessem também cagar diamantes!...
Alimentada por ilusões, mantida obediente, qual rebanho por medo de lobos maus, temerosa dos castigos eternos... por pecados inventados em sonhos e em noites escuras pintadas por loucos e ditadores, essa ingénua, essa estúpida e dócil de calculista, essa perversa de moralista... essa maioria, tão cruel quanto submissa... aceitava resignada "o seu destino", composto de licenças e multas, de cajadadas que agachada levava no lombo pregadas por pulso forte com frieza! Tudo... na expectativa de manter, a sempre vaga garantia (que se aproximava mais de uma promessa que tornava possível a esperança...), não da vida... mas da segurança! E essa, era dada, ou melhor... vendida, pelos vendedores de sonhos dourados e de negros pesadelos!
...Por dez réis de mel coado, pago, por cada dia que vivia, a uma companhia de seguros instalada num andar de cima, a maioria, que em caso de morte poderia ter a vida paga... assim andava, sem saber porquê, muito mais descansada!
...De pouco valia, àqueles outros (que eram só alguns), tentarem convencer a maioria, a abandonar a estrutura edificada, a serem donos da sua própria vida e guardarem o mel coado e as batatas para darem aos filhos, aos amigos, ou para trocarem com os vizinhos... é que aqueles outros, procurando preservar um mínimo de decência, insistindo na coerência, não lhe davam garantias... e isso, para a maioria, era inconcebível.

sexta-feira, março 11, 2005

Uma viagem de coragem cega

Revoltado o mar como estava durante aquela maré viva, abalava-te as convicções e reforçava-te os medos!
Quiseras... em aflição - dando a quilha à vaga e desfraldando a vela -, esperar dos teus pares as asas da fragata, a coragem e a cumplicidade... mas, a força com que o mar te abalroava, a água salgada que em vendaval te entrava pelo frágil bote adentro e te mirrava os ossos, uivou-te à alma - uma após outra vez - que estás só!
...Teimoso, não ligaste. Não quizes-te acreditar. ...Para o caso tanto se te dava!... Destemido, rumaste a um destino, por rotas que não vêm no mapa. Intrépido, à medida que avançavas vaga acima e te vias a mergulhar na cava que ameaçava destroçar-te, deste por ti abandonado. ...Justamente por gente que por medo abandona o barco e se faz náufrago agarrado a frágeis tábuas, ramos, troncos ou lixo, coisas diversas que por norma se mantêm à tona, enquanto eras assaltado por piratas e apontado como louco, por homens que se diziam de boa fé e que passavam ao largo da tempestade...
Salvo que foras um dia por ti mesmo (aquele outro que de si ninguém conhece)... conheceste-te a acreditar, que o que fosse se veria e, perante a brutalidade daquele mar que ameaçava destroçar-te, conduzir-te em vertigem por abismos escuros com que nem os mais fortes e rijos, os mais maus e duros, os mais corajosos em mar chão... se atrevem a sonhar... tu, avanças-te, agarrado ao leme, do cada vez mais frágil barco, de onde tantos tinham saltado descrentes na chegada ao bom porto que acreditaram desejar.
Sabias (e não te vou perguntar como)... que há mais mar que marinheiros, que depois da tempestade vem a bonança, que enquanto há vida há esperança, que quem almeja sempre alcança e que, a calmaria... apenas serve para retemperar forças. De contrário, seria o marasmo... e a vida, não seria esta utopia neste mar salgado, ora calmo, ora eriçado, que revolve e agita, que mata e cria, para que tudo continue sempre, como até aqui nunca tinha sido!
Sabias... mas duvidavas! Fustigado por ventos de poderosas rajadas, desgastado que estavas das estaladas e dos golpes brutos vaga afora até à crista... dos golpes baixos mar cavado frio e denso adentro...
Querias manter-te à tona... e quando um dia em bolandas, em plena tempestade descobriste que podias fazer disso o porto de chegada... a razão da tua vida... ela, pregou-te a partida e lançou-te para a tonta calmaria de uma estúpida enseada! E foi aí, que, dando conta das feridas, te encontraste esgotado a congeminar novas aventuras.

domingo, março 06, 2005

Uma visão

Extraordinariamente, vi-te partir na chegada!...
...Vinhas em crise, na recta da meta, esgotada da corrida, saturada do medo de não chegar ao fim! O corpo... todo dorido, ameaçava-te a cada passada deixar de obedecer à tua vontade, rendido ao cansaço, pronto a abandonar-te, a deixar-te sozinha na derrota, no caminho...
Olhei-te nos olhos, auscultei-te a expressão que trazias na face e no corpo, e durante momentos que pareceram sem fim... não te reconheci, de deformada que estavas! Espelhavas desanimo, esvaias-te em suor e, ofegante, incapaz de articular palavras... era assim que te queixavas. Esgotado o fôlego, não te ocorria nem conseguirias dizer nada, cansada que estavas dos estratagemas, de quem te punha a correr para apostar no teu adversário, e em redor, um turbilhão avalassador alimentava a tua dor. Um burburinho crescente de vozes e vaias, que fazia de ti uma gazela nervosa em fuga para a meta, consumia-te as últimas calorias. O vassalo impotente... mais uma vez crescia em ti, o galgo e a lebre fundiam-se-te na alma e corrias desesperada, em risco de te rebentarem os bofes, para gáudio de uma multidão que assistia distraída, segura do desfecho, trocando impressões sobre iates, corridas de cavalos de sangue puro, luvas para golfe de pele de pinguim, pitarocas de meninas de dez anos e falos cor de rosa... e tu, concentrada na corrida, avançavas em pedaços que abandonavas dispersos por onde passavas, sempre e cada vez mais em câmara lenta, com o burburinho destorcido pela lentidão, que te ecoava na cabeça, até que... já próximo da meta, no final daquela recta, na iminência do desfalecimento, da queda... deste conta dos sentidos inundados, pelo jorrar do champanhe que escorria nas bancadas delirantes com a vitória que a tua derrota coroara, pelas gargalhadas debochadas numa festa em que tu, eras o bombo! Sentiste-te atingido na alma, pelas graínhas dos bagos de uva a serem cuspidas para a arena, enquanto num olhar de relance sem dó, te vaiavam o lugar...
Não se sabe bem a razão! ...Nem todos respondem da mesma maneira! Mas tu... invadidos os músculos por uma subtância que eu julgo composta por revolta e indignação, cortas-te a meta no teu lugar... e partiste... sem parar, como uma seta, cheia de força, agora sem um queixume... rumo a nenhum lugar!
...Nunca ninguém mais te viu, a engrossar a bancada correndo com a força do crédito, oferecido na partida e retirado na recta da meta, já bem próximo da chegada...

sexta-feira, março 04, 2005

Acossado

Fugia de si próprio por veredas pantanosas, lançava-se em corrida desesperada ao longo de túneis escuros de que não lhes via o fim e, chegava até a sentir-se culpado, por essa fuga em demanda de paz, que havia iniciado desde que se lembrava de ser gente.
Quisera deambular livre, simplesmente. Extasiar-se com a beleza de prados floridos, embrenhar-se em bosques frondosos colhendo frutos e raízes silvestres, com que alimentar o corpo e regalar a alma. Quisera, comungar com a natureza, banhar-se e beber a água em ribeiros cristalinos, encher o íntimo com lampejos de felicidade ouvindo pássaros cantando, sentindo no âmago a vida que pulula e os odores inebriantes que, imaginava, inundariam essas paragens. ...Quisera, por um momento, encontrar-se a sós consigo, guardar no peito raios de luz que dançariam por entre a folhagem e à noite, vencer medos antigos das sombras, num banho de luar contemplando rendido e sereno, o céu estrelado.
Mas a vida, nunca lhe permitira sair do asfalto e os carreirinhos que pisava e não conhecia, os atalhos por onde em desespero se metia, iam todos dar ao ponto de partida!... Um sítio demasiado iluminado, que nunca lhe permitia ver sequer, a lua!
Perturbado... porque para com as obrigações que lhe criavam ele era faltoso, sentia ruir a estrutura e adivinhava-se apontado em cada esquina que dobrava, como um doido de cabeça estouvada em quem não se confia. Chegou até a sentir-se... o porquê dos males existentes e de outros que estarão para vir... e, era por isso, talvez até... só por isso, que almejava fugir. ...Não sabia como, nem para onde. ...Quando nasceu, todos os pedaços de terra tinham sido conquistadas e já tinham dono!
Pregavam-lhe multas, cobravam-lhe por tudo e por nada; o preço de um selo inventado, de um carimbo... uma comissão... e até pela dor que sentia no peito, pelo desgosto... lhe cobravam um imposto!
Mandavam-no ganhar o dinheiro para pagar... e ele, consumia para pagar, produzia para ganhar, ganhava sempre a perder, a toda a hora, em qualquer lugar, de qualquer maneira. Depois... claro, era multado!... Por ir apressado, por chegar atrasado, por não ter conseguido dar mais do que tinha!...
...Fugia de si próprio, envergonhado. Fugia parado. Obrigado a pagar para produzir, a comprar licenças para vender e a cobrar um imposto a quem lhe queria comprar, para depois entregar a quem no fundo geria a sua vida! Pagava para vender, vendia para pagar, pagava para não ser multado e quando o era, por não ter sido capaz de ganhar o suficiente... via a dívida agravada e chegou a ter que pagar com o corpo. Até que um dia... em agonia, sentiu-se forçado a vender fracções da alma ao diabo!... É que esse... pagava bem, e ele... estava cheio de dívidas.

terça-feira, março 01, 2005

A óptica da anti vida

Vem esta a propósito, do uso excessivo de antibióticos. Desta vez, foi uma associação qualquer de farmácias que referiu o facto. Eu, não pude deixar de achar estranho. É que, das duas uma, ou há ainda, uma terceira: Os médicos, estão a receitar antibióticos a mais, as farmácias estão a vender antibióticos sem receita médica ou, ambas as situações se verificam. Em qualquer delas, mais uma vez, quem se lixa é o mexilhão. ...Aquele animal que continua a ser visto como uma peça substituível a qualquer momento e que tem que andar até cair!
Longe vão os tempos em que as gripes eram tratadas com resguardo, cházinhos e canja de galinha! Hoje, a impiedosa máquina montada, exige peças novas ao mínimo sinal de fraqueza! Estar doente, ainda que com gripe, é visto como um sinal de debilidade que ninguém se pode dar ao luxo de deixar transparecer. Por isso, com a ajuda de médicos, cada vez mais eles próprios, peças com a função de manter as máquinas produtoras falantes em pé sem queixumes, recorre-se a patéticas medidas drásticas! E, na fuga para a frente, deste sistema anedótico, vão-se promovendo outras doenças, debilitando o sistema imunitário, sobrecarregando o sistema hepático, irritando o sistema gástrico, promovendo colites, estimulando tosses "secas"... tudo, por sua vez, dominado por mais e mais medicamentos...
Será que a industria farmacêutica tem o poder de pressionar os agentes envolvidos e é dessa forma que, comparando com outros países da Europa, vende mais em Portugal, ou, estamos perante a incompetência, a ignorancia, ou a pura insensibilidade?
Portugal, é o país da Europa que consome por habitante mais antibiótico (e, de largo espectro, à semelhança de outros países do chamado terceiro mundo)!

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Um desafio sempre actual

Joaquim Pedro de Oliveira Martins, em jeito de conclusão, escreve na última página do seu livro "Sistemas dos mitos religiosos" o seguinte:
A impiedade do coração é a fraqueza no braço e o látego no dorso. Uma sociedade materialista em que os homens limitam a vida aos anos de gozo, perdendo o sentimento do nexo do passado e da responsabilidade para com o provir, abandonando-se ao requinte e ao delitantismo como os atenienses de outro tempo, ou à brutalidade da riqueza com que se paga o fausto e as mulheres, como os romanos do passado; uma sociedade surda pelos gemidos dos que sofrem, pelas vozes dos que clamam, está condenada a cair. No gozo vai-se a força, no optimismo ingénuo pelas «maravilhas da civilização» perde-se o sentimento do que a civilização é, identificando-a exclusivamente com o luxo de artes mercenárias ou com a grandeza de obras apenas utilitárias. Perdido o norte, obliterada a moral, ignota a caridade, a vida torna-se numa luta sem nexo, e cada homem para o seu semelhante, hostis, inimigo, como era o estrangeiro na Roma bárbara. A ciência generalizada, e desmoralizada, é um instrumento grave na mão de homens bestificados: à navalha sucede o revólver, ao revólver os venenos subtis (estriquinina, aconitina), aos venenos quem sabe? o raio produzido por pilhas portáteis, quando a electricidade tiver dito quanto pode. Matar é a regra de todo aquele que não soube viver.
Amplifique-se o quadro que nos oferecem as grandes cidades com os seus exércitos de proletários, as opulências vulgares dos seus ricos, os desvairamentos das suas Bolsas, os seus bandos de facínoras, as suas plebes depravadas, a sua promiscuidade repugnante: amplifique-se, absorvendo a população ainda ingénua dos campos, e talvez não parecam quiméricos os receios de uma nova crise como a da Antiguidade, que também ouvira Platão e obedecera a Marco Aurélio. As oligarquias dos nossos ricos pedirão como as antigas uma espada que as defenda das plebes miseráveis também ávidas de gozar e a espada será um açoite, esporas e um freio - se por ventura houver janízaros bastantes para esmagar as multidões dos novos bárbaros. Chegarão a ver-se na Europa exércitos de berberes, de índios, de turcos assoldados pela França, pela Inglaterra, pela Itália, pela Rússia? O caso não seria novo, nem a solução imprevista.
Mas no dia em que tal sucedesse, a Europa acabaria, e sobre as ruínas de uma civilização algum futuro Dante veria no ondear fúnebre das multidões barbarizadas
Le genti dolorose
Ch' hanno perduto' l ben dello'ntelletto

Oliveira Martins, viveu entre 1845 e 1894.

sábado, fevereiro 19, 2005

Um ÁS, só.

Ele era um Ás, só! Não pertencia a qualquer naipe e quando se tratava de ir à mesa, fosse ou não por isso, punham-no logo fora de jogo! Às vezes, em jogadas mais rápidas, via-se com uma carta em cima a passar por instantes despercebido, mas assim que davam por ele, gerava-se uma confusão, diziam todos à uma que a vaza era nula e ele, dava por si num canto da mesa, arredado de jogo com frieza. Descartado...
Atirado, solto com desprezo por dois dedos, via-se num voo curto e rasteiro... fora de jogo, privado da magia que a esperança de poder ganhar nos dá. Mas isso, não era para ele o mais importante. O pior, era mesmo, sentir-se privado da possibilidade de ter esperança em si. De, como qualquer outra carta do baralho, poder vir um dia a servir para alguma coisa! Não estava por isso em questão, ganhar ou não! Muitas vezes tinha assistido a derrotas gloriosas e surpreendentes de outros Ases... cortados por cartas pequenas do naipe da mesa! ...Mas, ainda assim, adivinhava-lhes o prazer de terem feito parte do jogo e lia-lhes na cara o regozijo de terem sido olhados uma e outra vez, por olhos brilhantes, tidos como carta na qual se acredita e isso, por si só, ele achava que bastava, para qualquer um conseguir aceitar uma derrota com a cabeça erguida e manterem a vontade para voltar à mesa, com o mesmo entusiasmo em cada novo jogo. Podia sentir, a vida a subir-lhes medula acima, o bater desarvorado do coração transbordante de uma alegria contagiosa, tocados por dedos hesitantes. Adivinhava-lhes o arrepio da expectativa de poderem vir a ser lançados, numa jogada triunfante.
Por vezes, outras cartas que acabavam por terem pena de o ver fora de jogo, aconselhavam-no a aderir a um naipe! Convidavam-no a aderir ao delas!... As mais desinteressadas, chegavam mesmo a dizer-lhe para aderir a um qualquer... garantiam-lhe que no fundo ia dar ao mesmo... Mas ele, insistindo em ser coerente, fiel ao que sentia, mantinha-se irredutível e afirmava até orgulho em ser um Ás sem naipe, simplesmente. Dizia, alto e bom som, que pouco tinha em comum com os paus, que não estava de acordo com as espadas e que os ouros e as copas, lhe criavam ansiedade...
Ora, como é fácil de entender, a maioria das cartas não aceitavam esta posição e, não satisfeitas com o facto de ele estar quase sempre fora de jogo, faziam de tudo para o verem definitivamente fora do baralho! Aparentemente por isso, não paravam de lhe colocar questões estilo teste americano em que lhe exigiam um sim ou um não, como se tudo fosse passível de ser resumido a uma fórmula, em que se condena ou absolve, se é bom ou mau e as reflexões profundas não servissem para nada.
Um dia, saturadas das respostas que ia dando e que normalmente começavam por: Depende... , baniram-no definitivamente do jogo por decreto que instituía a existência exclusiva de quatro naipes!
Às primeiras, o nosso Ás só, sentiu-se sozinho. Mas, à medida que se foi erguendo e se fez ao caminho, foi encontrando outras cartas sem naipe, de cores que nem conhecia e que estavam interessadas em saber, do que é que depende... a vida de cada dia. Ases e Reis, Manilhas e Duques, Ternos e Quinas, aos magotes... cartas, que nunca tinham estado na manga e que sem que se tivessem dado conta jogavam um jogo em que todas eram indispensáveis.
Bem vistas as coisas, nem todo o losango é ouro, não há espada que sempre corte e há azares... que vêm por sorte!

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Guia prático para a construção de um moderno viveiro de marginais

1º - Escolher um terreno em que ninguém queira viver. Um sítio agreste e por isso barato, nos subúrbios de uma grande cidade.
2º - Construir lá, com pouca despesa, umas torres sem graça. Adicione-se um parque infantil com dois balouços e um bocado de areia. Não esquecer a escola para compor o complexo.
3º - Procurar famílias problemáticas, desintegradas, debilitadas ao nível físico e mental, económico e social, famílias... sem estrutura de recurso, em situações periclitantes que habitem bairros degradados, situados em terrenos com "potencial", cobiçados por construtores pontas de lança de instituições de crédito e bem relacionados com Câmaras Municipais e afins.
4º - Seleccionar os desgraçados por ordem e, em tempo útil, atribuir-lhes uma dessas casas estipulando-lhe uma renda dita simbólica.
5º - Convidar os órgãos de comunicação social para fazerem a cobertura da cerimónia oficial, em que, com pompa e circunstância, os representantes do poder político entregam as chaves aos ditos desgraçados. Promova-se uma entrevista a uma velha desdentada à qual seja ainda possível arrancar um pequeno olhar de esperança e um agradecimento convicto.
6º - Uma vez os desgraçados instalados, manter-lhes todas as premissas que os conduziram à degradação e, em lume brando, esperar que as crianças cresçam.
7º - Adicionar uma pitada de crispação dos habitantes da Vila próxima, em consequência de um ou outro acidente (vulgo roubo) que envolva pequenos grupos desses jovens sem referencias e educação e que se arrogam ao direito de possuir também, telemóveis, ténis ou roupa de marca...inconscientemente esperançados que esses artefactos, lhes permitam "ser como os outros", passar despercebidos e apagar um carimbo que trazem na testa desde que nasceram.
8º - Esperar que a revolta cresça... nos invasores e nos invadidos, nos assaltantes e nos assaltados... até que abra brecha.
9º - Juntar uns filmes de merda frequentes, ao alcançe de todos, decorar com o comércio de armas, drogas lícitas e ilícitas que engorda gente insuspeita que passa a vida a bater com a mão no peito sem dizer "mea culpa" e levar à mesa... regado com muito álcool ao qual é só puxar o fogo.

N.B. - Esta receita, deve ser confeccionada com muito cuidado, para não sair tudo queimado.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

Um mundo colorido

Ao alcance de um botão, temos o mundo em resumo, na mão. ...Em documentários, reportagens, notícias breves. E, temos até o direito a espreitar a opinião padrão que nos aparece pré cozinhada, embalada, pronta a cair no prato, a ser engolida num trago e digerida num ápice com a tranquilidade de quem sente que o caso fica entregue e resolvido!...
Temos de tudo ao alcance; consoante a hora, o programa, o canal... Podemos entrar casa a dentro da família degradada e com falta de estrutura. Podemos olhar a miséria em grande plano... ver o tecto que abateu! Podemos imaginar o frio que alí habita... que regela e trás ranhosas as crianças mal criadas... entregues à sorte, à impotência/incompetência de um casal... que ele próprio... desde sempre... precisava, de uma restruturação geral, mas que, entretanto, por várias faltas e excessos, vive débil e dramáticamente agarrado a um "rendimento mínimo", graças à boa vontade de uma assistente social, de um ministério, de um sistema que teima em mascarar sintomas preciosos!...
... Podemos ouvir os testemunhos de uns vizinhos que lhes dão couves, ou de um padre que ainda num outro dia lhes deu cobertores. Podemos ter pena. Podemos até... zarpar para outro canal!...
...Pode parecer que temos tudo... falta-nos o essencial...

domingo, fevereiro 13, 2005

Amor ou talvez não... como sempre

Ia ele atarefado, no meio da multidão, quando o móvel tocou.
- Tou tou?...
Do outro lado, uma voz macia, com duas palavras, abalou-lhe toda a estrutura:
- Olá, "Fontanela"...
Estremeceu! ... "Fontanela" era o nome que usava num blog que mantinha e, fosse lá pelo que fosse, nunca tinha contado essa parte da vida a ninguém!... Mal refeito da surpresa, respondeu:
- "Fontanela"?!... Mas... quem é que fala?!... Com quem é que quer falar?
- Ora... deixa-te disso! Claro que é contigo que quero falar e pouco me importa o teu nome! Sabes ou não que eu existo, que comungo das mesmas ideias e das mesmas preocupações?... Tens ou não a noção que estamos muito próximos um do outro, que somos células do embrião que se está a formar?...
Por breves momentos que lhe pareceram eternos, ficou sem saber o que dizer... talvez por isso, numa tentativa de ganhar tempo, insistiu:
- Deve aquí haver um engano... para que número é que quer falar?
Mas a mulher, com voz doce que a ele lhe parecia estranhamente familiar, não lhe abria uma pequena brecha por onde se pudesse escapar, antes o encurralava e obrigava, a encarar que sabia perfeitamente com quem estava a falar. De resto, grande parte do dia pensava nela, muito do que dizia, tinha a ver com o que ela escrevia e, já não sabia, como se tornara possível uma tal empatia com alguém que não conhecia. Estaria ele contagiado com uma peste moderna, propagada através da net que se instalava e desenvolvia no terreno fértil do imaginário dos homens sós? Mas a voz doce não lhe deu tréguas e lançou um desafio demolidor:
- Um doce... em troca do meu nome...
Ele, engoliu em seco. Pelo absurdo da situação, mas, acima de tudo pela íntima convicção de que ela, era a "Ilha submersa", a mulher a quem tinha vindo a seguir com minúcia tudo o que ela teclava e com quem frequentemente trocava comentários! Á partida não tinha qualquer lógica!... De qualquer modo, num impulso sem explicação, como num sonho, arriscou:
- És a "Ilha submersa"...
De imediato, a chamada caíu e ele, num gesto largo, afastou o telefone do ouvido e olhando desolado em redor a multidão atarefada, viu surgir direita a ele, uma mulher com um telefone na mão, que se aproximou bem pertinho e insinuante lhe disse:
- Bingo!

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Pais desnaturados

Num sítio escuro, estreito e dito agora sem saída, vive uma criança perdida há já muito abandonada, por quem em tempos lhe dissera que a amava e a defenderia, dos papões que sem pejo lhe criava...

Tudo começou... quando pérfidos senhores da guerra, através de um velho processo de conquista, se tornaram donos da terra em que vivia, esculpindo-lhe desde logo na alma monstruosos inimigos, contra os quais lhe semearam na mente ódios cegos sem outra saída que a guerra, ao mesmo tempo que lhe impuseram a vontade que assumiram, de protegê-la de vindouros e terríveis perigos!
Feitos assim senhores de condados inventados a fio de espada, tornados novos usuários de velhos castelos, pediram-lhe em troca ajuda com a sua contribuição, para a defesa do condado... Uns produtos da horta, umas saquinhas de grãos, um tonel de vinho, um ou outro porquinho... produtos, para levar à mesa, que lhes dessem forças para a defesa...
Mais tarde, pedir-lhe-iam a própria vida, em lutas que promoviam contra esses monstros por eles criados... e a criança, vendo-se forçada a encontrar a coragem para responder ao solicitado, deu por si a subir à muralha e a dar o peito à flecha!
Depois, aproveitando as artes que os seus antepassados lhe tinha ensinado, puseram-na a fabricar latas e elmos com que a vieram a fardar, pesadas lanças e espadas mágicas com que a vieram a armar, tornando-a capaz de vencer dragões e de cortar de um só golpe, várias cabeças de um inimigo que de outra forma... nunca ninguém teria imaginado.
Umas vezes a pé, outras, montada num cavalo alado ou embarcada numa caravela, a criança, protegida por um Deus até aí desconhecido, partiu para toda a parte por medo, em busca de paz e salvação!
Foi assim que venceu e matou monstros arrepiantes, infiéis com pactos com o Diabo... gente estranha com a cabeça envolvida por turbantes, selvagens parecidos com os homens, que choravam como os macacos e que desventravam grávidas e comiam crianças... espetou bandeiras em chão longínquo, fez das tripas coração comendo o pão de cada dia retirado de saques sagrados com que cumpriu a sua missão de trazer tesouros... riquezas, que alimentaram a expansão de um novo Império! Levava na bagagem a fé, um evangelho com novas leis e rituais que tornavam possível oferecer o perdão a bárbaros e infiéis, libertá-los de velhos mitos, oferecer-lhes um Deus verdadeiro e a própria civilização...
Disseram-lhe na partida, para matar à vontade... que assim se conquista a vida...
Hoje, os ventos mudaram e muitos dos que a aclamaram são agora quem a condena! Os senhores da guerra, entretanto, foram saindo de mansinho, adoptaram novos discursos, outras roupagens, alugaram os condados a estrangeiros endinheirados, guardaram o produto dos saques em paraísos fiscais e partiram! Hoje, são eles que andam mundo fora, umas vezes na neve... outras em paraísos tropicais... Para trás, ficou uma criança abandonada num beco escuro, a lamber feridas da culpa, de costas voltadas para a saída...

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

O meu sentir à família Cabral

Ele nunca foi presidente de coisa nenhuma e a palavra que botava, raramente ia além do seu quintal, desde sempre modesto. Nunca lhe deram medalhas... todas as batalhas que ganhou, ganhou-as em recato e de tão pouco espalhafato dir-se-ia, que o voto que teve na vida foi quase nulo.
Passou-lhe ao lado, essa coisa de ser um profissional de sucesso, investiu quanto tinha em ser Homem e nunca entendeu muito bem o que eram essas cruzes que alguns ostentam ao peito... as rosa cruzes, as cruzes de Malta as cruzes da ordem do cavaleiro...
Ele tinha uma cruz, que carregava em silêncio e sem queixume e bem vistas as coisas, ninguém sabia se, ou quanto, ela lhe pesava.
Escolhera há muito, ser membro inteiro daquela família, amigo e companheiro, cúmplice até à medula... e isso, pouco a pouco, foi-se tornando incompatível com a realização profissional e com as conquistas noutros horizontes com que os homens crescidos sonham...
Viam-no, a fazer quase nada! ... As compras para casa, as visitas regulares ao centro de saúde, uma ou outra incursão ao mundo da assistência social em busca de sentido e de justiça... sempre com a sua Paulinha! A sua filha, a sua grande amiga e companheira com que se aventurava culinária afora, viajando pelo mundo dos sabores, uns mais, outros menos exóticos... na invenção de uma doçaria... de uns salgados com o toque de uma especiaria...
Quando se tornava possível iam à pesca ( o mar, para esta família sempre se tornou um pouco longe!... )! A Paulinha, embora já adulta, não tinha a destreza suficiente para colocar o isco no anzol... e ele ajudava... explicava mais uma vez como se fazia... Depois, com a cana na mão, falavam da vida, do mar, do céu e sabe-se lá, do que mais! A Paulinha, escutava com atenção e ia entendendo o mundo, melhor que muita gente que há por aí com o peito cheio de gran cruzes e medalhas! Falar, falava com mais dificuldade, porque lhe custa articular as palavras, mas ele, compreendia-a na perfeição.
Talvez, que se ela não tivesse nascido com o cordão umbilical enrolado ao pescoço, nunca se tivessem entendido tão bem e muitos dos momentos felizes que passaram não tivessem acontecido!...
Amanhã, o Srº Cabral, tem direito a funeral! Ninguém lhe vai erigir uma estátua e adivinho que não vai ficar com o nome na História... mas no meu entender, o Srº Cabral, foi um herói maior que muitos, que ostentam as tais cruzes ao peito e têm direito a estátua... na verdade, não são estes que fazem a História! Ela, é feita, por muitos homens como o Srº Cabral, que nunca ganharam uma medalha nem quizeram lutar por isso... a sua luta, era outra!...

sábado, janeiro 29, 2005

Doce amargo

A vida tem marés, tal qual o mar.
O mar, umas vezes parece irado! Bruto e revoltado eriça e revolve o fundo, agita a superfíce e bate na rocha dura até a transformar em areia grossa. Outras vezes, de tão calmo e espelhado, reflecte a tranquilidade que ele próprio assim transmite e que nos pode até levar a pensar, que essa é uma situação, que nunca irá mudar!
Ou, de outra maneira, se quiserem... a vida tem fases, como a lua. Umas vezes cresce brilha e alumia, enquanto noutras... escurece e mingua, quase que desaparece e até parece ter entrado em período de tréguas com as trevas.
A vida, de qualquer modo, é uma doida varrida, fogosa, que nos cavalga aos ombros e nos maneja as rédeas... que nos puxa, ou alivia, o freio. Tanto nos espicaça como deixa à rédea solta. Umas vezes pesa e outras nos eleva...

sexta-feira, janeiro 28, 2005

O penitente

Ele era uma pessoa normal. Temente a Deus, católico não praticante por tradição, apostólico sem saber porquê, romano porque era latino, baptizado em pequenino e até já casado pela igreja, para não desgostar a família!...
Aprendera entretanto... que no prazer se escondia o pecado, que da dor, da miséria e do sofrimento, vinha a redenção e que, era mais fácil um camelo passar pelo buraco do cú de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus!... Temer a Deus... enfim!...
Paradoxalmente, tinha imensa pena dos"pobres" e das gentes em agonia... o que fazia com que, à noite, depois de se deitar, de se aconchegar e aquecer, nunca se esquecesse de orar a Deus; pedia, cheio da esperança possível, para que Ele fizesse justamente o que ele não fazia no seu dia a dia... e tornasse mais suportável o peso da cruz ao miserável.
...Esta pretensão (fruto de uma reflexão sonambula), tinha no entanto um senão que tornava este pobre crente num coitado quase arrependido de ter orado e pedido!... É que, ao pedir a Deus para amenizar a dor ao sofredor, sentia-se a dificultar-lhe a entrada no reino a que ele próprio (assim com'assim...) aspirava!
...Um dia, mal acordado, estremunhado, com a alma cheia de culpas e a consciência pesada pelo mal que por bem tinha vindo (ainda que só...) a pensar, resolveu penitenciar-se. Libertar-se da piedade que fazia dele um egoísta e, decidido a disfrutar de prazeres e riquezas, procurou compensar todos de quem tinha tido outrora imensa pena, explorando-os até ao tutano, infligindo-lhes sofrimento, atingindo-os na outra face... tudo, por forma a não terem tanta dificuldade a entrarem no tal reino, de que ele tinha descoberto a chave...

quarta-feira, janeiro 26, 2005

O gigante assustador

O Adamastor, era um gigante assustador pelo medo plantado num cabo, que ninguém sabia se por Deus ou pelo Diabo e que teimava, em criar dificuldades e tormentas a quem o quisesse dobrar. Muitos dos que partiram, embarcaram nessa aventura quase ou mesmo obrigados. Uns, por falta de alternativa, outros, saturados da miséria. Ambos levavam no peito a ânsia de chegar a terras da boa esperança em que o mel fosse mais doce, não houvesse fel e o ouro brilhasse mais. Alguns... poucos, foram pela aventura, almejando vencer medos desbravando mares ou até com fé de encontrarem, partes de si por aí espalhadas, que lhes pudessem encher vazios que os traziam incompletos.
Partiam por levas, uma e outra vez... e eram os poucos que voltavam, vencidos por esse gigante arrepiante plantado no cabo, que contavam da sua assustadora monstruosidade, da sua grandeza e enorme ferocidade. Uns, tinham-lhe visto claramente vistos os olhos imensos, ameaçadores e faiscantes, outros, tinham ouvido ensurdecedores bramidos trovejantes e outros ainda, por forças misteriosas petreficados, impedidos de ver e ouvir pela própria tempestade, puderam ainda assim com muita certeza adivinhar, por entre chuva e rajadas de vento sobrenaturais, o gigante a lançar certeiro raios e vagas aterradoras, de que só se salvavam os mais cobardes ou aqueles que por mister ou destino lhes cabia vir mais atrás e, claro, os outros a quem Deus, por razões que o homem desconhece, decidira "deitar a mão"!
Os que tinham ficado, os que participaram à força de braços, de sangue, suor e lágrimas, na construção das naus agora feitas destroços, desanimaram... ouvindo relatos sobre a altura e a força do gigante... imaginando os seus bramidos e poderes devastadores! ...Mas já na enxerga, enquanto recuperavam forças, viam o desânimo transformar-se em raiva, o medo transformar-se em revolta contra o dito e era daí que nascia a vontade e a determinação, para cada um à sua maneira, apurando a sua arte, continuar a construir naus, cada vez melhores, mais fortes e até... mais belas.
Apurou-se a arte de navegar, agigantou-se o sonho e a aventura e todos prosseguiram as suas tarefas em sintonia, perseguindo o objectivo que era: Dobrar o gigante!
Hoje o gigante, feito rochedo desde a altura em que foi dobrado, esvai-se em areia fina... Nacionalismo à parte (porque isto tem mais a ver com a vontade dos homens e ele há-os por todo o lado), parece-me uma bela história...

sábado, janeiro 22, 2005

Défice

Os portugueses, andam desanimados... ombros caídos... olhos no chão... sentem-se traídos e vão ressentidos, arrastando-se penosamente na vida, em busca de terra firme ou, na sua falta... de culpados, que lhes tirem algum peso dos ombros! Sentem-se perdidos e sem rumo, neste país caravela desde sempre por vagas lambido. Ora contra, ora ao sabor do vento, da corrente e ainda que por vezes, com as velas esfarrapadas e o casco cheio de rombos das tormentas... vai... este povo, enfrentando os medos, os monstros e gigantes... e com essa matéria fabricando o seu destino.
Mas... há um défice! Um défice enorme de esperança... de coragem e garra, de vontade e determinação de chegar a bom porto. E esse défice, é bem pior do que o outro, de que tanto se tem falado. Não se resolve com teorias de economia de mercado, com operações de cosmética contabilistica, ou golpes de rins da engenharia financeira!
Há um défice. Agigantou-se agora mais uma vez o nacional fatalismo e já pouco interessa de quem é a culpa. Isso é passado!
Urge sacudir do pelo o ressentimento e o queixume, aceitar cada problema como um novo desafio, desatar cada nó que nos tolhe, bradar cada vez mais alto a liberdade e bater cada vez mais forte o pé à desdita, destemidos.
Urge sair do marasmo, pelos filhos, pelos avós e por nós. Sair da conversa de ir ao pipi, que anda à roda... à roda... não dá nada e que espremida, não deita uma gota.
Urge acabar com a inveja e a cuscuvilhice, com a crítica da política do bota a baixo e com a lógica de que é isso que nos põe em cima, sem sequer tentarmos elevar-nos para não corrermos o risco de fracassar.
Urge cultivar a excelência, a perfeição no pormenor, a gentileza escorreita, o olhar e o gesto solidário. O resto são tretas embrulhadas em papel de seda!
Urge mandar às urtigas os medos, chamar os bois pelos nomes e acabar de vez com o servilismo hipócrita e sem sentido.
Urge alcançar o máximo de humildade, com doses q.b. de auto estima que sempre jorra da solicitude enquanto vontade de ser útil.
E... quando com vozes melosas nos disserem: vêm por aqui... urge, analisar-mos muito bem, com a nossa própria cabeça, se é isso mesmo que nos convém.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

Numeros redondos

770 milhões de euros - submarinos
252 milhões de euros - helicópteros
480 milhões de euros - aviões
334,2 milhões de euros - blindados

Total - 1.836,2 milhões de euros.

O hospital de Évora (por exemplo), tem vindo a fazer notar a necessidade de uma unidade de radioterapia. Custa 5 milhões de euros e evita a deslocação sistemática de 1000 doentes, do Alentejo até Lisboa.

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Como vender um andar à filha em segurança ou como comprar um andar ao pai sem lhe ficar a dever nada

Com os filhos todos casados, os pais viviam agora numa casa demasiado grande e como em tempos tinham comprado um andar para alugar, agora devoluto, resolveram, por ser mais pequeno, mudar-se para lá!
Como o negócio do arrendamento se tinha revelado aquém das expectativas, sem falar das chatices que lhes tinham criado... resolveram vender o apartamento maior e pôr o dinheiro a render... no banco!
Uma filha agora a viver num andar demasiado pequeno por via de ter tido dois filhos, pensou em comprar o andar aos pais! Pôs a casa pequena à venda, pagou ao banco a hipoteca e negociou um novo empréstimo para comprar a pronto a casa aos pais que ficou por sua vez hipotecada. Os pais, meteram o dinheiro no banco a render numa conta a prazo e vivem agora dos juros.
Entretanto hoje, tanto a filha como os pais se queixam do banco. O pai, diz que recebe pouco e a filha que paga demais!...
Eu, depois de ouvir o que um paga e o que o outro recebe, não resisti a levantar a hipótese de terem feito o negócio entre eles: A filha vendia o andar pequeno, pagava a hipoteca ao banco e dava o dinheiro que sobrasse aos pais. Depois, era simples... a filha ia viver para o andar grande e ficava tudo em família. Em vez de pagar a prestação ao banco, pagava aos pais. Os pais, em vez de receberem do banco, recebiam da filha. Um pagaria menos e o outro receberia mais!... Mas disseram-me logo: Ó pá, isso assim, dava uma enorme complicação e se calhasse ainda se arranjavam chatisses!... E eu acredito! ...E dizem eles mal dos bancos!