quarta-feira, fevereiro 02, 2005

O meu sentir à família Cabral

Ele nunca foi presidente de coisa nenhuma e a palavra que botava, raramente ia além do seu quintal, desde sempre modesto. Nunca lhe deram medalhas... todas as batalhas que ganhou, ganhou-as em recato e de tão pouco espalhafato dir-se-ia, que o voto que teve na vida foi quase nulo.
Passou-lhe ao lado, essa coisa de ser um profissional de sucesso, investiu quanto tinha em ser Homem e nunca entendeu muito bem o que eram essas cruzes que alguns ostentam ao peito... as rosa cruzes, as cruzes de Malta as cruzes da ordem do cavaleiro...
Ele tinha uma cruz, que carregava em silêncio e sem queixume e bem vistas as coisas, ninguém sabia se, ou quanto, ela lhe pesava.
Escolhera há muito, ser membro inteiro daquela família, amigo e companheiro, cúmplice até à medula... e isso, pouco a pouco, foi-se tornando incompatível com a realização profissional e com as conquistas noutros horizontes com que os homens crescidos sonham...
Viam-no, a fazer quase nada! ... As compras para casa, as visitas regulares ao centro de saúde, uma ou outra incursão ao mundo da assistência social em busca de sentido e de justiça... sempre com a sua Paulinha! A sua filha, a sua grande amiga e companheira com que se aventurava culinária afora, viajando pelo mundo dos sabores, uns mais, outros menos exóticos... na invenção de uma doçaria... de uns salgados com o toque de uma especiaria...
Quando se tornava possível iam à pesca ( o mar, para esta família sempre se tornou um pouco longe!... )! A Paulinha, embora já adulta, não tinha a destreza suficiente para colocar o isco no anzol... e ele ajudava... explicava mais uma vez como se fazia... Depois, com a cana na mão, falavam da vida, do mar, do céu e sabe-se lá, do que mais! A Paulinha, escutava com atenção e ia entendendo o mundo, melhor que muita gente que há por aí com o peito cheio de gran cruzes e medalhas! Falar, falava com mais dificuldade, porque lhe custa articular as palavras, mas ele, compreendia-a na perfeição.
Talvez, que se ela não tivesse nascido com o cordão umbilical enrolado ao pescoço, nunca se tivessem entendido tão bem e muitos dos momentos felizes que passaram não tivessem acontecido!...
Amanhã, o Srº Cabral, tem direito a funeral! Ninguém lhe vai erigir uma estátua e adivinho que não vai ficar com o nome na História... mas no meu entender, o Srº Cabral, foi um herói maior que muitos, que ostentam as tais cruzes ao peito e têm direito a estátua... na verdade, não são estes que fazem a História! Ela, é feita, por muitos homens como o Srº Cabral, que nunca ganharam uma medalha nem quizeram lutar por isso... a sua luta, era outra!...

3 comentários:

tounalua disse...

Os teus textos, cada vez mais, me prendem à sua leitura, do princípio ao fim, na antecipação do que vem a seguir.
Esta homenagem ao Sr. Cabral que investiu quanto tinha em ser Homem vivendo a sua vida em recato serve para tantos outros. Eu não diria, nunca, que o voto das suas vidas poderá ter sido nulo.

uivomania disse...

Este texto, só foi possível, graças à existência do Srº Cabral.
Hoje, mais que nunca, estou-lhe agradecido! Pela forma como desempenhou o seu papel na vida e (sublime exemplo) a dedicou aos outros, neste caso à "sua" Paulinha! ...Uma menina... que como tantas outras, vistas bem as coisas... é nossa, e tem vindo a ser engeitada!

Ana disse...

Todos os dias venho "kuskar" o teu blogg, é quase como uma peregrinação. Nas minhas visitas diárias, sempre ou quase, me deparo com narrações que me enternecem e me deixam muitas vezes sem palavras (por isso a maior parte das vezes não comento), hoje foi mais umas dessas vezes e só comento para te dizer que gosto do que por aqui leio. Obrigada pelos teus escritos e pela tua homenagem a quem realmente deve e merece ser homenageado.
Besitos e já agora ;) bom fim de semana