sábado, abril 09, 2005

Contacto

Através de vidros foscos, olhavam-se desde sempre e, por vezes, chegavam a sentir-se cúmplices. Nenhum sabia quem o outro era, e qualquer deles, estava muito longe de se entender como parte de um ser uno. Alguns, tinham vislumbres em que queriam acreditar... mas as coisas eram vagas, e ao que uns chamavam de percepções, os outros garantiam não passarem de fantasias que alimentavam ilusões!
...Por vezes... um, esboçava um aceno, sem qualquer certeza de que alguém o recebesse. E, se por acaso ou necessidade um outro o percebesse... calhando (com mais ou menos fé), respondia. Sempre sem garantia de manter o que quer que fosse.
Mais que uma vez, viveram momentos suspensos que lhes pareceram de ternura e sintonia. Alguns, sentiram o coração arrebatado por uma estranha sensação fugaz, cujo sentido se perdia entre sombras projectadas em terreno desconhecido.
Em busca de contacto... palmas das mãos coladas ao vidro... a ponta do indicador... era o bastante para que a imaginação parisse brotos promissores de onde poderiam despontar futuros. E isso era o bastante para que se sentissem vivos e pertencentes a algo para além do concreto.
Outras vezes, sem que ninguém soubesse bem o como ou o porquê, viam nos seus próprios reflexos inimigos com que chegavam a lutar até à morte, movidos por paixões, convicções cegas e jogos de poder, em que ficavam todos a perder.
Quando assim era, qualquer palavra era a palavra errada e um qualquer motivo poderia servir de pretexto para inverter o sentido ao texto. Corriam em desnorte! Sacudiam do capote as culpas entranhadas nos ossos durante tempos sem fim de ilusão e reflexão baça e, em busca de um culpado creavam destruição, estilhaçavam os vidros e davam de caras consigo próprios!

4 comentários:

tounalua disse...

Há vidas inteiras que se passam assim... a olhar-se a si próprias através de um vidro fosco ou sujo ou com uma qualquer textura que se constroi a partir de um sonho ou só da falta de amor próprio. Continuas a dizer imenso através das tuas palavras e sabe sempre bem ler-te. ;) Fica bem.

pindérico disse...

Mais um excelente texto.
Parabéns

Ana disse...

Nada a dizer, apenas que gostei e muito.
Besitos

Biranta disse...

Se as pessoas percebessem bem que esses momentos em que "qualquer palavra é a palavra errada" acontecem a todos, talvez as relações entre os seres humanos se tornassem mais "humanas". Assim do estilo de estarmos todos a lidar com gente que tem virtudes e defeitos, incluindo nós próprios... Mas concordo com "Tou na Lua": uma boa parte dessas atitudes de algumas pessoas para com os outros devem-se ao seu baixo "amor-próprio"; vêem nos outros os seus próprios defeitos e não conseguem ver mais nada. Conscientes disso, "mesmo que seja apenas ao nível do subconsciente" falam mal de tudo e de todos, apenas por falar, relegando-se para uma sub espécie que nem humana é... Coitados! Pode-se fazer alguma coisa por esses? Eu acho que sim (menos ceder ou condescender).