segunda-feira, janeiro 03, 2005

A arte de bem navegar sem ir a lado nenhum

Era uma vez... um barco, a navegar, no alto mar. À primeira vista, dir-se-ia que era um barco como qualquer outro, com uma tripulação idêntica a qualquer outra, naturalmente empenhada em manter um qualquer rumo. Contudo, numa observação mais cuidada, fácilmente se chegaria à conclusão de que este barco em particular - se bem que não estivesse propriamente à deriva -, não se dirigia a nenhum lugar!...
Por caprichos e acasos imprevisíveis, esta tripulação podia lançar a ancora, fazer marcha à ré ou mudar de rota, alternar o lazer com uma actividade frenética ou a euforia com uma profunda melancolia! ...Tudo, com profunda naturalidade.
Por vezes, enquanto uns andavam muito ocupados a desfazer no trabalho dos outros, outros, recusavam-se a trabalhar por isso mesmo e, preferiam discutir sobre a melhor maneira de vir a fazer alguma coisa!
O comandante - um provinciano em negação -, detinha o cargo por duas razões: a primeira, é que tinha herdado o uniforme de um antepassado que andara a matar mouros, e a outra, é porque tinha muito jeito para dar a volta ao texto. ...Quer dizer; tinha facilidade em dizer as coisas da frente para trás e de trás para a frente, podendo ainda desmentir-se, ou a quem quer que fosse, de tal forma... que ninguém conseguia deixar de lhe dar razão e de dizer mal dele pelas costas.
Um pormenor curioso, é que não entendia absolutamente nada da arte de navegar. Não fazia a mínima ideia do que era a longitude ou a latitude e, se algumas vezes estabelecia determinada rota... era completamente à toa, ou baseado num filme de piratas que tinha visto quando era pequeno! De qualquer modo, se bem que desconfiasse do que pensava, gostava de acreditar que confiava plenamente na tripulação, ou pelo menos era o que achava que lhe ficava bem pensar!
...Quando lhe dava na veneta, embuido do sentido do dever, escrevia num papel qualquer coisa do género: "7 graus para norte, virar à direita com a latitude máxima"!... Em seguida, chamava o imediato, entregava-lhe o papel e mandava executar a ordem! O imediato, que tinha tirado um curso profissional de fiel de armazém e que se tinha visto naquelas andanças por ambicionar secretamente vir a ser comandante - talvez por isso -, gostava de inovar, sendo que a rota a tomar, poderia ficar: "7 graus para norte, 2 para sul, virar à esquerda com a longitude máxima"!
No fundo, sabia que tudo ia dar ao mesmo, mas não deixava de pôr um ar solene, quando entregava as ordens ao homem de serviço ao leme! Este por sua vez, farto de ver que as rotas que recebia nunca conduziam a lado nenhum, acatava a ordem só para não se ver com um processo disciplinar em cima, mas virava o leme ora para um lado ora para outro, conforme lhe dava na gana, só para não parecer estar sem fazer nada!
O comandante entretanto, ia passando a maior parte do tempo no camarote a beber uns copos e a magicar na próxima ordem... o que, a bem dizer, lhe tomava o tempo todo e o deixava numa pilha, já que assim que ordenava algo, tinha que começar tudo de novo, o que nem sempre era fácil, tendo em conta o perigo de se repetir! Quando a ordem não lhe ocorria, tinha uma de recurso, que nunca falhava: dividia a tripulação em dois grupos , um para sujar o convés e outro para limpar o convés!... Quem não gostava nada dessa tarefa era a tripulação e, por tradição, fazia sempre ao contrário, o grupo para limpar sujava e o outro é que limpava!... Nunca dava problema, porque, por sua vez o imediato, fazia o relatório ao contrário e acabava por ir dar ao mesmo!...
Nos tempos mortos, estava instituído um grupo de pescadores à linha, ao qual cabiam duas funções: alimentarem a tripulação e - se por infortúnio, incompetência ou desleixo, acabavam por não pescar nada -, servir como bode expiatório a quem deitar as culpas e descarregar iras contidas.
Quando, ainda assim, a rotina se tornava pesada, era dada uma ordem ao vigia, para gritar: Navio à viiiisssta! Ou, nos casos mais desesperados: Terra à viiiiissssta! ...Ainda que não visse nada! ...Era destituído do cargo e, depois de se remoer um bocado no assunto, não se pensava mais nisso.
Por vezes, por acasos do destino, um marinheiro qualquer avistava efectivamente um navio. Mas claro, ninguém acreditava nele até entrarem em rota de colisão e safarem-se à última! ...Aí, davam a desculpa do engano na rota e pediam ajuda. Combustível, água, mantimentos, umas cervejinhas... o que pudessem dispensar...
Nem sempre era fácil, porque os comandantes dos outros navios tinham alguma dificuldade em entender que tipo de barco era aquele... ficavam na dúvida se era de pesca, se de mercadorias, se de piratas... alguns chegavam a pensar, que era de recreio... dependia muito da fase em que a tripulação andava...
O mais curioso, é que ninguém pretendia abandonar o barco ou mudar o que quer que fosse! Embora todos se queixassem, andavam entretidos a ver se conseguiam subir de posto!... Quando a situação se agravava para além do que consideravam razoável, faziam uma votação, em que, regra geral, se invertiam os papeis do comandante e do imediato e tudo começava de novo... ...Vidas!... De marinheiros.

3 comentários:

tounalua disse...

Este texto descreve muitas vidas e momentos de muitas outras. Reconheço à minha própria vida demasiados destes momentos e, quando consigo reconhecê-los, irrito-me profundamente comigo e com todos os que vão conseguindo envolver-me nestas "navegações".
Belíssima mensagem!

uivomania disse...

Reconhecer um erro é um grande passo. Corrigi-lo será óptimo. Irritarmo-nos com as nossas imperfeições só nos dificulta a vida. Elas trazem-nos problemas e são estes que nos permitem aperfeiçoar-nos. Digo eu!...

_violeta_ disse...
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