domingo, janeiro 09, 2005

Um milagre popular

Chegara um tempo, em que as estratégias económicas e financeiras levadas a cabo com base em velhas teorias políticas e sociais, os padrões da moral e da ética e o modelo estrutural em geral instituído, pelo qual a civilização se tinha vindo a reger, tinham revelado uma ineficácia de tal modo confrangedora, que não restara ninguém para assumir qualquer tipo de liderança.
Perante a insatisfação geral, todos evitavam indicar ou aconselhar a quem quer que fosse, o que quer que fosse, com medo de que desse para o torto.
Os políticos, tinham vindo a desaparecer progressivamente e já só existia um, conservado como espécie protegida, em ambiente esterilizado, que não exercia, devido a um esgotamento nervoso, já antigo, fruto de uma carreira de insucessos sucessivos e por falta de oposição!
As próprias doutrinas religiosas, desde sempre enraizadas em sólidos dogmas, antes fácilmente adoptados quando as coisas ficavam mais negras, viam-se agora a braços com uma procura demasiado racionalista de um carácter pragmático raiando um fanatismo que as ultrapassava e tinham simplesmente fechado as portas por falta de clientes , de profissionais do sector e também, por tudo isso, por falta de motivação!...
A humanidade, reclamava uma nova realidade, mas ninguém mexia uma palha que fosse fora do seu quintal, com medo de se ver investido com alguma responsabilidade.
Ninguém queria emitir opinião ou tomar qualquer atitude, com medo de vir a ser mal interpretado ou chamado à ribalta em que por regra geral todos eram vaiados pelos outros!
Perante esta situação, todos diziam mal de todos por entre dentes e lamentavam-se da situação para com os seus botões!
Entretanto e à falta de melhor para compensar um estranho vazio que sentiam no peito, iam satisfazendo caprichos, consumindo o máximo possível sempre insatisfeitos com tudo o que tinham, procurando adquirir o que não tinham, almejando o longínquo e principalmente, o que aparentasse ser impossível de conseguir!... Até que um dia, saturados desta lufa lufa, desta pescada de rabo na boca, cansados deste tipo de miséria entretanto já global, resolveram sentar-se todos a uma mesa gigante, olharam-se uns aos outros nos olhos e começaram a conversar coisas soltas, algumas até sem sentido aparente e foi aí, desde logo, que repararam, que se estavam a sentir muito mais felizes!

3 comentários:

Ana disse...

Sabes que és um optimo contador de "estórias"? :)
Adorei o texto! Parabéns...

tounalua disse...

Venha de lá o cansaço! Rápido, por favor, é uma emergência! :)

uivomania disse...

Obrigado! Fico contente, por mim e por todos, que existam pessoas que gastem do seu tempo a ler histórias destas.