sexta-feira, janeiro 28, 2005

O penitente

Ele era uma pessoa normal. Temente a Deus, católico não praticante por tradição, apostólico sem saber porquê, romano porque era latino, baptizado em pequenino e até já casado pela igreja, para não desgostar a família!...
Aprendera entretanto... que no prazer se escondia o pecado, que da dor, da miséria e do sofrimento, vinha a redenção e que, era mais fácil um camelo passar pelo buraco do cú de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus!... Temer a Deus... enfim!...
Paradoxalmente, tinha imensa pena dos"pobres" e das gentes em agonia... o que fazia com que, à noite, depois de se deitar, de se aconchegar e aquecer, nunca se esquecesse de orar a Deus; pedia, cheio da esperança possível, para que Ele fizesse justamente o que ele não fazia no seu dia a dia... e tornasse mais suportável o peso da cruz ao miserável.
...Esta pretensão (fruto de uma reflexão sonambula), tinha no entanto um senão que tornava este pobre crente num coitado quase arrependido de ter orado e pedido!... É que, ao pedir a Deus para amenizar a dor ao sofredor, sentia-se a dificultar-lhe a entrada no reino a que ele próprio (assim com'assim...) aspirava!
...Um dia, mal acordado, estremunhado, com a alma cheia de culpas e a consciência pesada pelo mal que por bem tinha vindo (ainda que só...) a pensar, resolveu penitenciar-se. Libertar-se da piedade que fazia dele um egoísta e, decidido a disfrutar de prazeres e riquezas, procurou compensar todos de quem tinha tido outrora imensa pena, explorando-os até ao tutano, infligindo-lhes sofrimento, atingindo-os na outra face... tudo, por forma a não terem tanta dificuldade a entrarem no tal reino, de que ele tinha descoberto a chave...

6 comentários:

tounalua disse...

Mais um belíssimo "retrato", uivo.
Lembrei-me do personagem Susaninha (da Mafalda de Quino) que em certa tira diz qualquer coisa como: "A minha mamã fica tão impressionada com os pobrezinhos que prefere fazer de conta que eles não existem. É tão sensível, a minha mamã!"
Há almas assim, muito sensíveis...

ricardo disse...

bem visto, meu caro, muito bem visto! é por estas e por outras que o nosso mundo anda cheio de almas tão caridosas! e que Deus os tenha em sua mão! um abraço

uivomania disse...

Eu acho que a pena e a caridade, haviam de ser substituidas pela fraternidade e solidariedade. Tornava-se muito mais higiénico e poupava-se um trabalhão a Deus!

tounalua disse...

Sem dúvida! Aliás, caridade devia ser uma palavra (ou um acto) sem razão de existir.

Biranta disse...

Uma parte da caridade que se vê, por aí, não passa de chauvinismo; cretinice destinada aos coitadinhos, que só "têm o direito" de ser "considerados" enquanto permanecerem "coitadinhso". Se, por acaso, exigirem o respeito pelos seus direitos de seres humanos, então a história muda de figura.
Faz-me lembrar o seguinte episódio, que se passou na minha presença:
Há uns anos, em conversa com um casal conhecido, falou-se, por mero acaso, de racismo. A mulher disse, com o ar de quem diz uma grande coisa, uma coisa sublime:
"Eu não sou racista. Deus me livre! Já basta o desgosto de serem pretos, quanto mais ainda a gente ser racista!"
Acredito que, quem lê isto, fique estupefacto; mas, não tenhamos ilusões, este tipo de "pensamentos" estão generalizados, pela nossa sociedade, acerca das mais variadas coisas, mormente na caridade.
O meu grande problema (o que me causa maiores contratempos) é que eu acho que não tem de ser assim; que isto tem de mudar e pode mudar.

uivomania disse...

Caro Biranta, quanto à necessidade de mudar, quase todos estamos de acordo. O problema é, mudar o quê e como! Ora, neste aspecto, o meu empenho possível, vai todo inteirinho para a mudança em mim já! Cansei-me de estar à espera de que os grupos se formem e tomem uma atitude. Uma atitude anti racista, anti machista, anti anti imigrantes, anti capitalista selvagem... Descobri que posso mudar, no entretanto, algo, à minha volta e a mim não me apanham a aproveitar e a explorar vergonhosamente a necessidade de uma Ucrâniana ou de um Cabo Verdiano, pelo simples facto de que os considero meus parceiros de viagem por este Universo que mal conheço e hà muito que compreendi que tirando todas as nossas particularidades, somos, como disse, parceiros e os parceiros têm que ser solidários e cúmplices! Nem todos pensam assim! Bem o sabemos! Mas ninguém pode evitar, que eu não explore a fraqueza e a necessidade de outros, que eu os respeite e considere e isso, por pouco que seja, é uma mudança, enquanto outras mais profundas não se tornarem possíveis.