terça-feira, janeiro 11, 2005

Deficiência

Todos diziam que ele era uma pessoa normal.
Não era coxo nem cego, contudo, não via um palmo à frente e para andar, gostava sempre de se apoiar em quem o rodeava, com medo de cair. Não era mudo ou surdo e no entanto, pouco falava, evitava a todo o custo emitir opinião para não se comprometer e sobre o que ouvia, podemos dizer que pouco entendia, ou então... que não queria saber ou fazer o esforço para entender. Ele não sofria de nenhuma sequela de paralisia cerebral, não era para ou tetraplégico, mas ainda assim, não estava disposto a correr um mínimo de risco e por isso, nunca mijava fora do penico ou saía do carreirinho traçado para levar a vidinha. Era incapaz de dar um golpe de rins e não se afoitava no dia a dia, com medo de cair e não conseguir levantar-se. Não gostava de dar ou oferecer, receoso de poder vir a precisar do que desse ou oferecesse. Andava tão distraído com pena de sí próprio, que era incapaz de se soltar e ajudar, perder um pouco do seu tempo ou dar amor a alguém. Sem estar dependente de uma cadeira de rodas, olhava em redor e encontrava em cada obstáculo uma barreira intransponível, desanimando se ninguém o ajudasse. Custava-lhe pedir ajuda para não ficar em dívida e ficava triste, deprimido e ressentido com o mundo, por estar sujeito a sofrer!
Ele era um deficiente profundo... só, que não sabia.

5 comentários:

Ana disse...

Ele era daquelas pessoas, tipo melhoral? Das tais que não fazem bem nem mal :)Deficiente era sim, mas de uma deficiencia interior, que ninguém vê, mas que se sente, está incrustada nos poros e é por ele transpirada... essas são as piores deficiências, as que minam tudo à sua volta, sem tréguas nem piedade.

tounalua disse...

Deficit emocional e humano ... o pior!

uivomania disse...

Há também quem lhe chame, peste emocional, concordas com o conceito Tou na Lua?
Não estou de acordo que seja como o melhoral que não faz bem nem faz mal... Ana. Este homem, pode comer a mãe viva para defender os seus pézinhos de barro. Com a agravante de apanhar todo o homem de boa vontade, desprevenido.

tounalua disse...

Já há muito tempo que trazia "na cabeça" o meu Dom Fechadão e, há alguns dias, consegui acabar o boneco. Embora nunca fiquem tão completos como eu gostaria (falta-me o talento) decidi publicá-lo hoje no tounalua para ficar em paralelo aqui com o teu "deficiente profundo". Acho que são da mesma família... ambos conseguem "empenar" a vida a muita gente.

ricardo disse...

e assim se escreve mais uma página, nua, dura e crua, da triste sociedade em que vivemos... enfim.